quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Desafios de uma Nova Evangelização

Pe.Jesus Aguiar

Com o decorrer do tempo nós cristãos deixamos que o Kerígma – primeiro anúncio sobre Jesus (Amor de Deus, Pecado e Salvação, Senhorio de Jesus, Vinda do Espírito Santo, Fé, Comunidade, Maria), fosse se esfriando dentro de nós. A ausência desse amor de Deus anunciado e experienciado causa-nos um vazio em nosso sentido existencial. Vemos hoje em nossa sociedade, escolas, jovens, famílias a perda do sentido transcendental, que é responsável por elevar o ser humano ao núcleo mais profundo de seu próprio ser.
Em nossas famílias muitos conceitos deformados foram entrando, e isso gera dúvidas, incertezas e inseguranças. Quando falamos de Jesus Cristo, estamos falando do amor eterno que se Revelou entre nós e nos possibilitou encontrar o melhor de nós mesmo, a encontrar sentido no mundo a partir da luz que o Senhor nos concede.
Encontramos na família muitas realidades desafiadoras, novas estruturas foram-se formando ao longo do tempo, e nenhuma está excluída da família de Cristo, mas convidadas a serem formadas e iluminadas por Ele, para que encontrem sentido.
Precisamos nos afinar pela dimensão Kerigmática, apresentar Jesus afim de que Ele se torne conhecido, e fazemos isso a partir da missão. Missão é executar uma tarefa, nesse sentido somos convidados a levar as pessoas a conhecerem esse homem-Deus que nos trouxe a salvação.
Precisamos estar atentos a realidade do nosso tempo, enquanto membros da Igreja nos abrir para acolher e sairmos em missão. Crescemos pela força do amor. Nossos argumentos e testemunhos são de suma importância para esta missão. Para isso dispomos da liturgia, da catequese, pastorais e movimentos, que são meios para irmos ao encontro das pessoas e das pessoas virem até Deus. Só pelo fato de sairmos em missão, já somos transformados por ela.
Encontramos diversos grupos a serem evangelizados, fiéis participantes da Igreja, os que receberam os sacramentos e não fizeram uma experiência com Jesus, e outros que não o conheceram. Dessa forma, precisamos ter paciência nessa missão de evangelizar, para que haja frutos e num momento posterior festejarmos a alegria de apresentar o Senhor que nos salva.
São muitos os que se encontram nas periferias existenciais e geográficas, daí a importância de um crescimento humano sustentado no amor de Deus através do Kerígma. Quando falamos em catequizar, falamos de uma interação com a vida, tendo a Bíblia como livro referencial.
Como mudar? Do pessoal para o coletivo, ou do coletivo para o pessoal? Precisamos dialogar entre esses dois polos, não existe cristianismo sem comunidade, daí a importância de nos organizarmos em pequenos encontros, pequenas comunidades. Talvez precisamos reduzir nossos excessos e trabalhos e priorizar as essencialidades de cada realidade, e valorizarmos a importância da motivação e da alegria fraterna.
Não podemos racionalizar o Kerígma, que é uma experiência do amor de Deus, e não uma explicação sobre essa experiência. Para isso nos dispomos da mistagogia (introduzir a pessoa ao Mistério de Deus), e do desafio de uma nova linguagem, para que o Amor de Deus Revelado em Jesus Cristo chegue aos corações. O encontro com Cristo ocorre na Palavra, nos sacramentos, nas pessoas. Muitos de nossos cansaços se referem a busca incansável e isolada por nós mesmos, faz-se assim necessário um exame de consciência para nos corrigirmos. Isso inclui uma unidade eclesial, clérigos e leigos. O Testemunho concreto de Deus em nós, é uma fonte de transmissão de valores em nossa sociedade atual.
Nosso desafio enquanto cristãos é tornar Jesus conhecido, e isso se dá por meio do (encontro, kerígma e da missão). Nesse sentido, Cristologia (estudo sobre Cristo) e eclesiologia (estudo sobre a Igreja) se encontram, através da alteridade (Encarnação do Filho de Deus) e da gratuidade (Mistério Pascal – paixão, morte e ressurreição do Senhor). Jesus é aquele que faz a vontade do Pai, Ele é a realização do Reino de Deus. Cristo se deixa encontrar, mas da nossa parte temos que buscá-lo, através da nossa inteligência e vontade. A Nova Evangelização consiste aí, numa experiência de fé que é a experiência de Encontro com Cristo. No Primeiro Testamento, Israel fez a experiência de ouvir o Senhor, no Segundo Testamento, através da Encarnação do Verbo, vimos o Senhor.
Assim, é importante entendermos o Evangelho e os Sacramentos, no primeiro Deus nos fala, no segundo Deus faz através da Igreja. Há importância muito grande em estabelecermos uma coerência entre a Eucaristia e os Sofredores. Isso nos impulsiona a nos encontrarmos e oferecermos a capacidade do encontro com os outros. Nossas formações precisam estar pautadas no Kerígma, daí entendemos a importância do Encontro com Cristo, esse desejo, essa atração no Mistério Redentor, pois é uma forma de compreendermos a nossa missão enquanto batizados que é levarmos Cristo ao outro. O anúncio do Senhor que nos transforma é centralidade na iniciação à Vida Cristã, porque nos leva a aderir àquilo que Jesus nos apresenta, isso desperta o desejo de o encontrarmos, de sermos conduzidos por sua Palavra, e nos motiva à leitura orante e a vivermos em comunidade, motivando-nos ao serviço dos que sofrem.
A experiência da missão nos leva a sermos fascinados pelo Senhor, conhecer e optar pelo Cristo, a buscar pela verdade contida em cada ser humano através da fé pessoal que envolve a inteligência. As escolas de animação bíblica, são caminhos para oferecerem esse caminho de conhecimento da Palavra. Nas pequenas comunidades, são lugares propícios para reflexões, assim entendemos que o Evangelho da vida é o centro da vida de Jesus e também o nosso.
Enfim, a espiritualidade é o motor que nos motiva a essa nova evangelização. Não podemos nos prender a ideia de buscar resultados imediatos, mas precisamos semear, e não ter a pretensão de atingir a todos, sem obsessão quantitativa, mas qualitativa. Abandone-se no Senhor!



Texto elaborado de anotações da formação para o Clero na cidade de Lins/SP, na Chácara dos irmãos do Sagrado Coração nos dias 01/09 e 02/09. Palestra ministrada pelo Monsenhor Antônio Luiz Catelan Ferreira, assessor da Comissão para Doutrina da fé da CNBB, sobre a Exortação Apostólica do Papa Francisco, Evangelii Gaudium e sobre o documento 102 da CNBB, sobre as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2015-2019.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Por falar de amor

Se o amor me leva a adentrar a casa,
por um lado a dor me leva a buscar a chave para sair.

Jesus Aguiar1
Vânia Dantas2



O amor é algo que talvez não possa ser definido, mas que tentamos sentir ou demonstrar por meio de linguagens e gestos. São abraços, palavras, sonhos, flores e presentes que veem em nome dele e que são direcionados para a pessoa em que encontramos o destino, a fim de entregar esse tesouro tão nobre que existe dentro de nós.
Amor que anestesia o tempo, rompe com a cronologia, instaura um tempo eterno onde parece só existir o início, pois ele não termina jamais. Emoções congeladas num sorriso; é o vencedor que serve. O pensamento e a alma se unem e neste espaço sagrado criado e só a pessoa amada nele permanece.
O amor exige uma exclusividade, talvez a nominemos de fidelidade. Queremos um vínculo, uma entrega total entre o amado e a amada. As estrelas são assim roubadas do céu e guardadas no interior do coração, como bem poetizou o grupo Roupa Nova : “Te dou o meu coração / Queria dar o mundo”.
O amor faz com que entreguemos o mundo e também nos entreguemos totalmente ao coração escolhido, para assim nos derramarmos totalmente.
No escrito bíblico (1 João 4,18), o autor sagrado decreta: “O amor lança fora todo o medo”. Certamente esse amor humano, que também é revestido de divindade, não teme as intempéries do tempo presente porque elevou o coração amado a um lugar muito distante das imperfeições e dos limites, numa dimensão salvífica. Revestiu-lhe de proteção, deu-lhe esperança e o assegurou com a segurança que só mesmo o amor pode oferecer.
O amor desvela o próprio núcleo do ser, volve de luz a pessoa amada, e assim não há trevas que possam permanecer perante a sua presença. Amadurece a inteligência, pois reluz a essência divina de onde procede, e assim molda o humano à imagem e semelhança do Eterno, fazendo com que sua própria inteligência eterna norteie os corações de modo a levá-los a se importar apenas com aquilo que não passa. O amor transpassa a matéria pois vê com outros olhos, vê por dentro dos seres as intenções e os limites e tem compaixão pela essência escondida em casa humilde.
O mundo sofre de uma carência, de um vazio. É a ausência do amor que o deixa assim. O mundo necessita de essencialidade, e só o amor pode iluminar tal fato. O coração humano quer amar e ser amado; quando não o assumimos, vivemos o processo da nadificação, existência fútil, estéril. É o indicativo de que precisa haver uma recriação. Só o amor pode criar, porque ele é dinâmico, ele é força, ele permite perscrutar os contrários para deles criar uma dimensão unitiva/construtiva.
Quando o amor aflora, uma nova primavera se inicia: sol brilhando, flores desabrochando, borboletas voando a anunciar que uma nova estação vem; a alegria ocupa o lugar da tristeza, o amor ocupa o espaço até então tomado pelo medo, a terra está fecunda, a vida cresce.
Enfim, o amor faz o ciclo da vida circular, tudo se modifica, a equidade emerge, os sons e a poesia dão brilho preparando o grande protagonista que chega e que encanta a multidão que distante dele caminhava, e que agora nele encontra o seu sentido de harmonia.

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1Graduado em Informática – Universidade de Lins, graduado em Filosofia – Centro Universitário Claretiano, graduado em Teologia – Faculdade Dehoniana -, Pós-graduado em Filosofia Clínica – Instituto Packter -, Pós-graduando em Psicologia/Sexualidade – Uniara.
2Mestre em História Social – Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Especialista em Filosofia Clínica - Instituto Packter, Licenciada em Filosofia – UFU. E-mail: vaniamor@hotmail.com.

sexta-feira, 21 de março de 2014

RESSIGNIFICANDO O MUNDO



                                                       1
Jesus Aguiar
Vânia Dantas2

Nosso ser pessoa, além de contemplar aquilo que somos e fazemos, implica também em nos colocar em relação com o mundo. Viver é relacionar. É assim que vivemos, e nesta perspectiva ao longo do existir vai corroborando nossa imagem que temos do mundo, das pessoas, dos objetos que nos circundam.
No cotidiano temos várias imagens do mundo que nos são fornecidas por meio das conversas, da abstração. Alguns representam o mundo como lugar perdido, de pessoas sem uma direção, de um verdadeiro caos no sentido humano. Outros esboçam imagens esperançosas, onde o mundo é visto como belo, pessoas como solidárias, e a humanidade em contínua modificação.
Tais símbolos que trazemos em nosso interior sobre o exterior são meios também que influenciam diretamente nosso jeito de ser. Por vezes, a impressão que temos daquilo que “é de fora”, acaba sendo levado para nossa interioridade trazendo-nos uma verdadeira “indigestão”, nos desestabilizando, provocando um “mal estar”.
Quando nos conscientizamos de tal realidade, é momento de redirecionarmos o nosso posicionamento. Como diz um trecho da canção (Por Enquanto, Renato Russo): “Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, ta tudo assim, tão diferente...”. A vida nos proporciona novos motivos que nos fazem esquecer realidades passadas e assim mudar o horizonte do nosso poente.
Quais realidades que tem permeado seus dias? É chegado o momento de se adequar a uma nova estação, assim como os ciclos do ano, nossa vida também pede por transformações, abra-se a uma nova realidade....
Há momentos em que a vida é submetida as regras de nosso tempo, vida agitada, trânsito corrido, decisões a serem tomadas, questões familiares a serem resolvidas. Parece que somos absorvidos pelo stress de nossa hodiernidade. Certa vez Jung escreveu: “O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje”3.
São tantas e tantas situações que parecemos ser absorvidos pela exterioridade, é como se o mundo nos pegasse de nosso interior e nos colocasse em outro lugar, um lugar no qual nós não nos sentimos bem, pois não é a nossa casa, não é o lugar de nossa intimidade. E a partir daí, começamos a sofrer as nossas inadequações, nos vem o medo, a insegurança, a tristeza, até mesmo algumas enfermidades provenientes deste entristecimento por não estarmos no lugar que gostaríamos. Numa outra citação, Jung diz: “Como vemos, ambas as teorias [a de Freud e a de Adler] de que falamos tem em comum o fato de desvendarem impiedosamente o lado sombrio do homem. São teorias, ou melhor, hipóteses que nos explicam em que consiste o fator que provocou a doença. Logo, tratam não dos valores de uma pessoa, mas dos seus contravalores, que sempre perturbam ao se manifestarem”4. Ou seja, muitas vezes não sabemos gerenciar os nossos contrários, aquilo que nos propõe um “desprazer”.
O lado ruim existe! Não dá pra ficar apenas jogando-o abaixo do tapete, indefinidamente. Logo estaríamos vivendo sobre contêineres de lixo.
A vida automática por vezes nos faz esquecer de nós mesmos, dos nossos sonhos, das nossas qualidades, afinal fomos sequestrados do lugar onde mais gostamos de estar, e é nessa conscientização, no perceber que estamos aprisionados, que precisamos “bolar” um plano para sair daquilo que aos poucos vai nos matando.
Sempre é tempo de recomeçar, mesmo na dor. É preciso olhar para o lugar que nos rememora esperança e aí encontrar forças para rompermos os grilhões que nos aprisionam, nos recompormos, e então iniciarmos o processo de retorno para casa. Viver é sempre um processo de voltarmos ao lugar onde somos refeitos, onde somos novamente gerados na esperança, nos sonhos, na alegria. Esqueceu que lugar é esse? Vamos cria-lo na mente, vamos eleger o melhor para si mesmo; precisamos de modelos de bem-viver, precisamos de ideias para nos reinventar e mentalizar um paraíso mais digno, conforme nossa evolução.
O mundo pode ser modificado à medida que eu me modifico, que eu vejo o de fora de uma nova maneira, à medida que encontro forças para dar a ele uma nova moldura, uma nova pintura. Pinte o universo exterior com cores vivas, com cores que emergem de sua vida, viva de maneira renovada.
Uma vida renovada é uma vida que foi encontrada, é entrar em contato com o mais profundo de si, com o próprio Deus. Nesse sentido, Hannah Arendt escreveu: “o bem ao qual o amor aspira é a vida, e o mal que o medo afasta é a morte. A vida feliz é a vida que não pode ser perdida”5.
Muitos relatam essa experiência do reencontrar-se consigo, com Deus. E neste momento descobrimos que o mundo não está contra mim, mas fui capaz de reconciliá-lo, porque antes me encontrei comigo mesmo. É a experiência que fez Agostinho de Hipona: “Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez. Brilhaste, e teu esplendor afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume: respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e o desejo de tua paz me inflama”6.
Há uma reconfiguração em todo nosso ser pessoa, distribuído entre “espiritualidade, emoção e corpo”, tudo se integra e nos leva a uma harmonia. E passamos a ver a importância que existe no mundo que chamamos irracional ou “inconsciente”, no sentido de percebermos que não somos apenas racionais, também há outras várias dimensões em nós. É como disse Jung: “acho mais sábio reconhecer conscientemente a ideia de Deus; caso contrário, outra coisa fica em seu lugar, em geral uma coisa sem importância ou uma asneira qualquer - invenções de consciências 'esclarecidas'”7.

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1Graduado em Informática – Universidade de Lins, graduado em Filosofia – Centro Universitário Claretiano, graduado em Teologia – Faculdade Dehoniana -, Pós-graduado em Filosofia Clínica – Instituto Packter -, Pós-graduando em Psicologia/Sexualidade – Uniara.
2Mestre em História Social – Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Especialista em Filosofia Clínica - Instituto Packter, Licenciada em Filosofia – UFU. E-mail: vaniamor@hotmail.com.
3JUNG, C.G. Psicologia do Inconsciente. Tradução: Maria Luiza Appy. 3ªed. Vozes. Petrópolis, 1983, Prefácio do autor em relação à 2ªed.
4C.G JUNG, Psicologia do Inconsciente, 3ªed. Vozes, 1983, p. 39.
5ARENDT, HANNAH. O Conceito de Amor em Santo Agostinho. Lisboa: Editora Piaget, 1997. p. 19
6 AGOSTINHO. Confissões. XXVII. Tradução: Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2007.
7C.G JUNG, Psicologia do Inconsciente, 3ªed. Vozes, 1983, p. 63.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Repensar nossa história



Em um mundo tão agitado, movido pelo imediatismo, nem sempre encontramos um tempo para pensarmos sobre a nossa vida. São os afazeres, os compromissos, as obrigações do cotidiano, que acabamos nos esquecendo de nós mesmos, parece que estamos mais em torno de nossas ações do que de nosso próprio ser.
Em muitos momentos é preciso parar. Desacelerar esse processo no qual estamos inseridos e perceber as pequenas coisas que nos são essenciais e que pela agitação não conseguimos vislumbrar. É preciso ouvir a voz do coração, e adentrar a uma nova ambiência, a da fé e da espiritualidade.
Por meio da fé o ser humano encontra uma nova forma de ler o mundo, cria uma boa relação com Deus, com o próximo e com a natureza. A espiritualidade permite tais pontes, ver a presença de Deus junto a nós, e  perceber-nos como pessoa, como Filho/a amado/a de Deus.
Jesus ao longo de seu período histórico despertava naqueles que vinham até ele essa necessidade da espiritualidade, de comunhão com o Pai. No diálogo com a samaritana, ele diz: “Vem a hora, e é agora, na qual os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e verdade; tais são, com efeito, os adoradores que o Pai procura” (Jo 4,23-24).
Certamente Deus deseja isso para nós, que sejamos adoradores em espírito e em verdade. Que O reconheçamos como aquele que em seu infinito amor deseja sempre a nossa salvação, e ao mesmo tempo que olhemos sua obra criada, da qual fazemos parte, e mais ainda, que somos chamados a sermos responsáveis por ela. Essa é uma das melhores formas de se adorar, reconhecer que o Pai enviou seu Filho Jesus Cristo para nos comunicar seu amor, e que derramou seu Espírito para que caminhássemos na Sua verdade.
Portanto, a experiência com Deus, conduz-nos a nós mesmos, abre-nos a novos horizontes. Além disso, fortalece-nos e ilumina-nos; ajuda-nos a peneirar aquilo que é bom e aquilo que não é, otimizando em nós não só o nosso pensar, mas também o nosso agir. Creia, o impossível Ele pode realizar, mas deixe-se moldar por Ele!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Expressividade: encontrando a beleza do ser e do viver



Autores: Jesus de Aguiar Silva1
  Vânia Dantas2


Olhamos o mundo a nossa volta e descobrimos que vivemos uma constantemente relação de interdependência com tudo o que existe, e certamente percebemos que nossas maiores intersecções se referem à vida humana. A influência do outro em nossa vida, e também nossa influência naqueles que nos são próximos permite-nos pensar: aonde está a essencialidade da vida humana? Escondida em nosso ser ou desvelada? Por vezes, mediante aos fardos que nos são impostos, permanecemos longe de tudo, em nosso mais profundo interior, mas quando encontramos mãos que nos acolhem, palavras que nos elevam, nosso coração entra em consonância com a bondade emanada e então nos sentimos seguros, e então somos capazes de armar nossa tenda e ali depositar tudo o que trazemos em nossa bagagem.
Certamente buscamos um solo seguro, para podermos firmar nossas raízes, e ali permitirmos que nossa força vital – eros aconteça de maneira a nos fazer transcender, a nos elevar, a permitir que nosso intelecto releve a nossa mais profunda condição: sermos humanos. Essa força quando se estabelece é capaz de lançar fora tudo o que provém da falsa ilusão da vida que nos leva a morte – thanatos –. A expressividade consigo e para os outros alcança seu ápice quando encontramos um recíproco doar-se. Quando há essa entrega no sentido mais profundo de se visar o bem alheio, então contemplamos a dignidade humana. Assim, enxergamos sem aprisionar, aprendemos a proporcionar liberdade, conseguimos assistir ao espetáculo que é o outro com suas escolhas e tormentos, nos quais nem sempre podemos influir, pois cada um tem sua estrada. Conviver com o outro sem torná-lo bode expiatório de todas as nossas mazelas é, sem dúvida, o grande desafio para as relações.
O poeta Renato Russo tinha razão quando escreveu em uma de suas canções: “Não quero lembrar, que eu erro também”. O medo de se deparar com nossa realidade que ainda não foi modificada causa-nos angústia. E assim, os seres humanos, pela falta de coragem de se verem, acabam se acomodando, e com medo de mudar suas realidades, preferem convencer que os outros e o mundo estão errados, à iniciativa de sua própria mudança. De novo, Renato: “Todos se afastam quando o mundo está errado/ quando o que temos é um catálogo de erros/ quando precisamos de carinho, força e cuidado.”
Encontrar a beleza de ser e de viver talvez estejam no diálogo sincero consigo mesmo, ter a coragem de se criticar, no intuito de buscar uma obra escondida tal qual faz o artista. Essa atitude nos permite retirar nossos excessos como o que é tirado da pedra bruta, e assim conseguimos olhar a nós e a humanidade com um olhar mais estético, vendo a beleza escondida e prefigurada na pessoa alheia.
Portanto, ser e viver conjugam-se à medida que retiramos o medo e damos lugar à liberdade; a história é o grande espaço onde temos a oportunidade de nos desvelarmos ou de nos fecharmos. Ser humano é conscientizar-se de que a perfeição não existe, o que há são esforços que fazemos mediante nossas escolhas sobre aquilo que é bom mediante nossos juízos, mas lembremo-nos de que o grande critério que deve nos nortear é a vida, uma vez que o ser humano, por mais que não queira, está fadado à morte, e o seu olhar sobre a vida é que dá sentido e esperança à sua existência.


1Graduado em Informática – Universidade de Lins, graduado em Filosofia – Centro Universitário Claretiano, graduando em Teologia – Faculdade Dehoniana -, pós-graduando em Filosofia Clínica – Instituto Packter -.

2Mestre em História Social – Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Especialista em Filosofia Clínica - Instituto Packter, Licenciada em Filosofia – UFU. E-mail: vaniamor@hotmail.com.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Porta da fé – (2012 - 2013) Ano da Fé -


Sobre a Carta Apostólica – Sobre forma de Motu Próprio – Porta Fidei – Sumo Pontífice Bento XVI -

A Porta da fé – (2012 - 2013) Ano da Fé -

Desde os primórdios, a partir do momento que o homem toma consciência de si, de seu pensar, consequentemente tornou-se um ser que se projeta, um ser que espera, que acredita. Ao longo da história da humanidade, através de um processo de autoconsciência sobre si e sobre as realidades que o cercam, o ser humano tendeu apenas para o empírico, prático, e acabou deixando de lado aspectos reais, que não são empíricos, e preferiu negar sua ambiência interna. Parece ter ocorrido um aniquilamento do ser pensante, em vista do homem instintual, que não precisa dos valores para viver em sociedade, e assim consequentemente chegamos a humanidade hodierna, em que percebemos tantos avanços científicos e um regresso na dignidade humana, uma banalização do ser humano.
Quantas problemáticas em nosso mundo pós-moderno: a perda do sentido existencial, jovens perdendo-se nas drogas, a competitividade empresarial, a economia mundial em crise, o esfacelamento familiar, a perda de identidade, a falta de referencial, a destruição da natureza, a perda de valores, realmente estamos passamos por um grande caos.
A fé a partir da ótica cristã, nos possibilita uma nova vida, vida esta renascida em Cristo, que tem como missão reconfigurar a humanidade ao amor original, perdido por meio do pecado das origens, que desfigurou a imagem e semelhança de Deus em nós. Assim, “professar a fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – equivale a crer num só Deus que é Amor (cf. 1 Jo 4,8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mistério de sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor” (PF 1)1.
Como vemos, Deus a todo momento que ajudar o homem a ser feliz, em nossa contemporaneidade vemos uma humanidade carente, fragilizada, sem referencial. Buscamos um mundo de realizações e não aceitamos o sofrimento, precisamos nos recordar que o Ressuscitado é o Crucificado, o amor (glória) acaba passando pelo sofrimento (calvário), não há como fugirmos de nossa condição humana pois está ligada ao chronos. Acabamos nos afastando da fonte que nos sacia (Deus que é amor), mas é possível perceber que ao manifestarmos nosso desejo e abertura a este Amor eterno somos ressignificados e transformados por sua força. “Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos (cf. Jo 6,51). De fato, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este ensinamento de Jesus: « Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna» (Jo 6,27). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação” (PF 3)2.
Se faz necessário em nossos tempos tomarmos consciência de que a fé é dom de Deus para o ser humano, que para além de fortalecer nossa relação com Deus, também nos ajuda na ampliação da compreensão humana; assim ela nos é necessária para que saibamos subsistir num mundo perpassado por uma mentalidade utilitarista e permite-nos resgatar o valor da pessoa humana, promovendo o respeito, a dignidade e a vida. “A «fé que atua pelo amor» (Gl 5,6), torna-se um novo critério de entendimento e de ação, que muda toda a vida do homem (cf. Rm 12,2; Cl 3,9-10; Ef 4,20-29; 2 Cor 5,17)” (PF 6)3.
Uma nova evangelização se faz necessária, e para tanto precisamos realmente fazer a experiência dos primeiros cristãos que se entregavam inteiramente à fé, não numa superficialidade ou uma representação social que visasse interesses, mas consistia concretamente na entrega, na doação que transforma integralmente o ser humano. “Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria. […] abre o coração e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor a aderir à sua Palavra a fim de se tornarem seus discípulos. […] um patrimônio de riqueza incomparável e consentem ainda que tantas pessoas à procura de Deus encontrem o justo percurso para chegar à «porta da fé»” (PF 7)4.
“Só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus” (PF 7)5. A fé neste Amor que não passa emerge do interior para o exterior, e nos faz descobrir o sentido da existência, e nos direciona ao caminho correto, fazendo-nos refletir a luz que vem de Deus, Sumo Bem, é esta força que nos sustenta e motiva o ser humano a enxergar para além de sua limitação a bondade de Deus que perpassa o mundo, através do amor revelado em Jesus de Nazaré. “O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e ação da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma” (PF 10)6.
Dessa forma, a fé não se restringe a uma ambiência interna do ser humano, mas o provoca a exprimir sua fé na vida práxis, “o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso público. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. A fé, precisamente porque é um ato da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita” (PF 10)7.
Por meio da fé muitos tiveram as suas vidas transformadas e também transformaram as realidades existentes em sua época, “pela fé, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no anúncio de que seria Mãe de Deus na obediência da sua dedicação (cf. Lc 1,38). Com fé, Maria saboreou os frutos da ressurreição de Jesus e, conservando no coração a memória de tudo (cf. Lc 2,19.51). Pela fé, os Apóstolos deixaram tudo para seguir o Mestre (cf. Mc 10,28). Pela fé, foram pelo mundo inteiro, obedecendo ao mandato de levar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16,15) […]. Pela fé, os mártires deram a sua vida para testemunhar a verdade do Evangelho que os transformara, tornando-os capazes de chegar até ao dom maior do amor com o perdão dos seus próprios perseguidores. Pela fé, muitos cristãos se fizeram promotores de uma ação em prol da justiça, para tornar palpável a palavra do Senhor, que veio anunciar a libertação da opressão e um ano de graça para todos (cf. Lc 4,18-19)” (PF 13)8.
Portanto, hoje, todas as pessoas de boa vontade são convidadas a assumirem esse projeto inaugurado por Jesus e que convida a uma transformação interior e exterior. Em Cristo, Palavra viva, somos capazes de escrever uma nova humanidade através de uma intensificação do “testemunho da caridade [...]. A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2 Ped 3,13; cf. Ap 21,1).” (PF 14)9. A fé nos regenera, nos reconcilia com a vida, com a história, traz esperança e almeja a justiça. “A fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo” (PF 15)10. Assim, diante de tantas problemáticas atuais que corroboram para a degradação do ser humano, saibamos abraçar a fé e fortalecidos pelo Senhor sejamos discípulos missionários comprometidos, de modo que testemunhemos no mundo a fé traduzida em caridade, afim de que construamos uma sociedade de justiça onde reine a paz, a fraternidade e o amor.



1BENTO XVI. Carta ApostólicaPorta Fidei. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/motu_proprio/documents/hf_ben-xvi_motu-proprio_20111011_porta-fidei_po.html> acesso em: 26/11/2011, § 1.
2Ibid., § 3
3Ibid.,§ 6.
4Ibid.,§ 7.
5Ibid.,§ 7.
6Ibid.,§ 10.
7Ibid.,§ 10.
8Ibid.,§ 13.
9Ibid.,§ 14.
10Ibid.,§ 15.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

“CONVERTEI-VOS E CREDE NO EVANGELHO” Mc 1,15



A proposta apresentada por Jesus consiste em dois momentos fortes, o primeiro a mudança de pensamento – metanóia –, e o segundo crer em sua Palavra.

Diante do aspecto da transformação, que nominamos de arrependimento e conversão, é nos feito um convite de mudarmos nossas atitudes, nossa maneira de proceder, e para além de tal mudança somos convidados a aderir a uma nova forma de viver – reconfigurar nossa vontade à de Cristo -, seguindo por outro caminho, este caminho é o caminho do Senhor (anunciado por João Batista), é o projeto do Reino de Deus, que se traduz em justiça, solidariedade e amor. Esse novo estilo de vida foi vivenciado pela comunidade dos discípulos de Jesus, por Paulo e pelos seguidores de Cristo. Podemos traduzir essa nova maneira de viver em Cristo como vida no Espírito. Paulo mediante seu processo de adesão à Cristo compreende que “foi ele quem nos tornou aptos para sermos ministros de uma Aliança nova, não da letra, e sim do Espírito, pois a letra mata, mas o Espírito comunica a vida” (I Cor 3,6).

Jesus rompe com um sistema baseado em leis que apenas impunha fardos pesados sobre os mais fracos, “o ladrão vem só para roubar, matar e destruir. Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Foi subversivo às leis da religião de sua época e propôs um novo modelo de convivência, no qual a vida está acima de toda lei, pois o seu fundamento consiste exclusivamente no Amor (auto-oblação / kénosis). Para demonstrar tal atitude de Jesus vemos a cura do homem com a mão atrofiada em dia de sábado. “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou matar? Eles porém, se calavam” (Mc 3,4). E ainda no capítulo anterior outra boa nova: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; de modo que o Filho do Homem é senhor até do sábado” (Mc 2,27-28).

Baseado no anúncio e nos feitos de Jesus, o nosso acreditar neste Deus da vida e da esperança é que fortalece a nossa caminhada enquanto peregrinos neste mundo. “Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus” (Porta Fidei 7).

Assim, crer é sustentar algo em nós, e a fé que é dom de Deus, é uma estrada segura, e quando seguida é então capaz de conduzir o ser humano para além das intempéries deste mundo e transformar as realidades humanas. Quantas situações que nos aflige em nossa hodiernidade? As drogas, o consumismo, o hedonismo, o individualismo, o indiferentismo, o nihilismo, etc. “É a fé que permite reconhecer Cristo, e é o seu próprio amor que impele a socorrê-Lo sempre que Se faz próximo nosso no caminho da vida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2 Ped 3, 13; cf. Ap 21, 1)” (Porta Fidei 14).

Portanto, permitamo-nos ser ressignificados pelo Senhor, que seus ensinamentos e gestos nos motivem a crer em sua Palavra, que nos liberta de todas as realidades, ele foi quem pelo seu processo de entrega total “nos amou até o fim” (Jo 13,1), fazendo-nos compreender que a última palavra não é a morte ou o mal, mas o amor.