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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Repensar nossa história



Em um mundo tão agitado, movido pelo imediatismo, nem sempre encontramos um tempo para pensarmos sobre a nossa vida. São os afazeres, os compromissos, as obrigações do cotidiano, que acabamos nos esquecendo de nós mesmos, parece que estamos mais em torno de nossas ações do que de nosso próprio ser.
Em muitos momentos é preciso parar. Desacelerar esse processo no qual estamos inseridos e perceber as pequenas coisas que nos são essenciais e que pela agitação não conseguimos vislumbrar. É preciso ouvir a voz do coração, e adentrar a uma nova ambiência, a da fé e da espiritualidade.
Por meio da fé o ser humano encontra uma nova forma de ler o mundo, cria uma boa relação com Deus, com o próximo e com a natureza. A espiritualidade permite tais pontes, ver a presença de Deus junto a nós, e  perceber-nos como pessoa, como Filho/a amado/a de Deus.
Jesus ao longo de seu período histórico despertava naqueles que vinham até ele essa necessidade da espiritualidade, de comunhão com o Pai. No diálogo com a samaritana, ele diz: “Vem a hora, e é agora, na qual os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e verdade; tais são, com efeito, os adoradores que o Pai procura” (Jo 4,23-24).
Certamente Deus deseja isso para nós, que sejamos adoradores em espírito e em verdade. Que O reconheçamos como aquele que em seu infinito amor deseja sempre a nossa salvação, e ao mesmo tempo que olhemos sua obra criada, da qual fazemos parte, e mais ainda, que somos chamados a sermos responsáveis por ela. Essa é uma das melhores formas de se adorar, reconhecer que o Pai enviou seu Filho Jesus Cristo para nos comunicar seu amor, e que derramou seu Espírito para que caminhássemos na Sua verdade.
Portanto, a experiência com Deus, conduz-nos a nós mesmos, abre-nos a novos horizontes. Além disso, fortalece-nos e ilumina-nos; ajuda-nos a peneirar aquilo que é bom e aquilo que não é, otimizando em nós não só o nosso pensar, mas também o nosso agir. Creia, o impossível Ele pode realizar, mas deixe-se moldar por Ele!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Porta da fé – (2012 - 2013) Ano da Fé -


Sobre a Carta Apostólica – Sobre forma de Motu Próprio – Porta Fidei – Sumo Pontífice Bento XVI -

A Porta da fé – (2012 - 2013) Ano da Fé -

Desde os primórdios, a partir do momento que o homem toma consciência de si, de seu pensar, consequentemente tornou-se um ser que se projeta, um ser que espera, que acredita. Ao longo da história da humanidade, através de um processo de autoconsciência sobre si e sobre as realidades que o cercam, o ser humano tendeu apenas para o empírico, prático, e acabou deixando de lado aspectos reais, que não são empíricos, e preferiu negar sua ambiência interna. Parece ter ocorrido um aniquilamento do ser pensante, em vista do homem instintual, que não precisa dos valores para viver em sociedade, e assim consequentemente chegamos a humanidade hodierna, em que percebemos tantos avanços científicos e um regresso na dignidade humana, uma banalização do ser humano.
Quantas problemáticas em nosso mundo pós-moderno: a perda do sentido existencial, jovens perdendo-se nas drogas, a competitividade empresarial, a economia mundial em crise, o esfacelamento familiar, a perda de identidade, a falta de referencial, a destruição da natureza, a perda de valores, realmente estamos passamos por um grande caos.
A fé a partir da ótica cristã, nos possibilita uma nova vida, vida esta renascida em Cristo, que tem como missão reconfigurar a humanidade ao amor original, perdido por meio do pecado das origens, que desfigurou a imagem e semelhança de Deus em nós. Assim, “professar a fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – equivale a crer num só Deus que é Amor (cf. 1 Jo 4,8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mistério de sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor” (PF 1)1.
Como vemos, Deus a todo momento que ajudar o homem a ser feliz, em nossa contemporaneidade vemos uma humanidade carente, fragilizada, sem referencial. Buscamos um mundo de realizações e não aceitamos o sofrimento, precisamos nos recordar que o Ressuscitado é o Crucificado, o amor (glória) acaba passando pelo sofrimento (calvário), não há como fugirmos de nossa condição humana pois está ligada ao chronos. Acabamos nos afastando da fonte que nos sacia (Deus que é amor), mas é possível perceber que ao manifestarmos nosso desejo e abertura a este Amor eterno somos ressignificados e transformados por sua força. “Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos (cf. Jo 6,51). De fato, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este ensinamento de Jesus: « Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna» (Jo 6,27). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação” (PF 3)2.
Se faz necessário em nossos tempos tomarmos consciência de que a fé é dom de Deus para o ser humano, que para além de fortalecer nossa relação com Deus, também nos ajuda na ampliação da compreensão humana; assim ela nos é necessária para que saibamos subsistir num mundo perpassado por uma mentalidade utilitarista e permite-nos resgatar o valor da pessoa humana, promovendo o respeito, a dignidade e a vida. “A «fé que atua pelo amor» (Gl 5,6), torna-se um novo critério de entendimento e de ação, que muda toda a vida do homem (cf. Rm 12,2; Cl 3,9-10; Ef 4,20-29; 2 Cor 5,17)” (PF 6)3.
Uma nova evangelização se faz necessária, e para tanto precisamos realmente fazer a experiência dos primeiros cristãos que se entregavam inteiramente à fé, não numa superficialidade ou uma representação social que visasse interesses, mas consistia concretamente na entrega, na doação que transforma integralmente o ser humano. “Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria. […] abre o coração e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor a aderir à sua Palavra a fim de se tornarem seus discípulos. […] um patrimônio de riqueza incomparável e consentem ainda que tantas pessoas à procura de Deus encontrem o justo percurso para chegar à «porta da fé»” (PF 7)4.
“Só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus” (PF 7)5. A fé neste Amor que não passa emerge do interior para o exterior, e nos faz descobrir o sentido da existência, e nos direciona ao caminho correto, fazendo-nos refletir a luz que vem de Deus, Sumo Bem, é esta força que nos sustenta e motiva o ser humano a enxergar para além de sua limitação a bondade de Deus que perpassa o mundo, através do amor revelado em Jesus de Nazaré. “O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e ação da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma” (PF 10)6.
Dessa forma, a fé não se restringe a uma ambiência interna do ser humano, mas o provoca a exprimir sua fé na vida práxis, “o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso público. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. A fé, precisamente porque é um ato da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita” (PF 10)7.
Por meio da fé muitos tiveram as suas vidas transformadas e também transformaram as realidades existentes em sua época, “pela fé, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no anúncio de que seria Mãe de Deus na obediência da sua dedicação (cf. Lc 1,38). Com fé, Maria saboreou os frutos da ressurreição de Jesus e, conservando no coração a memória de tudo (cf. Lc 2,19.51). Pela fé, os Apóstolos deixaram tudo para seguir o Mestre (cf. Mc 10,28). Pela fé, foram pelo mundo inteiro, obedecendo ao mandato de levar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16,15) […]. Pela fé, os mártires deram a sua vida para testemunhar a verdade do Evangelho que os transformara, tornando-os capazes de chegar até ao dom maior do amor com o perdão dos seus próprios perseguidores. Pela fé, muitos cristãos se fizeram promotores de uma ação em prol da justiça, para tornar palpável a palavra do Senhor, que veio anunciar a libertação da opressão e um ano de graça para todos (cf. Lc 4,18-19)” (PF 13)8.
Portanto, hoje, todas as pessoas de boa vontade são convidadas a assumirem esse projeto inaugurado por Jesus e que convida a uma transformação interior e exterior. Em Cristo, Palavra viva, somos capazes de escrever uma nova humanidade através de uma intensificação do “testemunho da caridade [...]. A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2 Ped 3,13; cf. Ap 21,1).” (PF 14)9. A fé nos regenera, nos reconcilia com a vida, com a história, traz esperança e almeja a justiça. “A fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo” (PF 15)10. Assim, diante de tantas problemáticas atuais que corroboram para a degradação do ser humano, saibamos abraçar a fé e fortalecidos pelo Senhor sejamos discípulos missionários comprometidos, de modo que testemunhemos no mundo a fé traduzida em caridade, afim de que construamos uma sociedade de justiça onde reine a paz, a fraternidade e o amor.



1BENTO XVI. Carta ApostólicaPorta Fidei. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/motu_proprio/documents/hf_ben-xvi_motu-proprio_20111011_porta-fidei_po.html> acesso em: 26/11/2011, § 1.
2Ibid., § 3
3Ibid.,§ 6.
4Ibid.,§ 7.
5Ibid.,§ 7.
6Ibid.,§ 10.
7Ibid.,§ 10.
8Ibid.,§ 13.
9Ibid.,§ 14.
10Ibid.,§ 15.

domingo, 30 de outubro de 2011

A importância da meditação



O silêncio é o caminho para ouvirmos e entendermos algo. Nosso existir em Deus tem “peso imenso e eterno” II cor 4,17.


A Palavra que Deus nos dirige tem como lugar de acolhimento o nosso coração. Para que possamos contemplá-la, precisamos nos esvaziar de nossa vontade autônoma e nos dirigirmos ao encontro da profundeza do amor de Deus, que sempre age desinteressadamente.


Neste contexto, Deus acolhe nosso vazio e o preenche com sua própria dádiva, seu amor. Em nosso abandono, nos deparamos com Jesus Cristo, que é Palavra definitiva de Deus. Neste meditar utilizamos de nossos sentidos e imaginação, expressando nosso crer e assim abrindo-nos para o divino.


No Mistério Pascal (paixão, morte e ressurreição), vemos em Jesus esta pessoa incomparável – Homem e Deus ao mesmo tempo -, que é sempre uno e indivisível. Nas Bem-Aventuranças, iluminou seus discípulos de maneira definitiva, correspondendo a eles em seus anseios mais profundos conforme a Antiga Aliança anunciava “os pobres de Javé”.


Na Cruz, expressou a extrema pobreza de espírito, mas por ele fomos convidados a não pararmos na cruz, mas a olharmos o amor supremo consumado, nele recebemos a “Revelação”, o “bem aventurado”.


A bem aventurança de Jesus tem seu ápice em seu aniquilar-se, tornando-se dessa forma, espaço vital em prol de todos os homens. Esse era o seu modo de pensar.


Portanto, Cristo assim exprimiu o ideal a ser seguido, o ideal que ele mesmo é, e o ideal que Deus é como Uno e Trino. Dessa maneira, que através da meditação saibamos nos abandonar e encontrar a Cristo que nos conduz ao Pai.





Reflexão feita a partir do livro:


BALTHASAR, Hans Urs Von. Meditar como cristãos. Tradução: Pe. Clóvis Bovo, C.Ss.R. Aparecida-SP: Santuário. p.18-29.


Um bom livro para quem quer se aprofundar na meditação (oração).



Como lidar com o mal?



Anselm Grün nos apresenta uma classificação básica nominada pelos antigos monges, em que temos três forças em nossa alma: nous (espírito) aos anjos, Thymos aos demônios, Epithymia (desejo) aos homens.


Partindo da classificação elencada pelos monges, estes descrevem que Thymos (demônios) exercem sua influência sobre os homens através do ódio, da inveja e principalmente através da ira. Diziam eles que o ar é a região onde os demônios também são encontrados.


Para eles, a fantasia é o ponto de contato para os maus pensamentos, ocorre ali uma luta de nossos próprios pensamentos, exclusivamente quando estes estão carregados de paixão e emoção.


Demônios são capazes de dominar um homem (como descrevemos acima), de forma que ele se torne um possesso. Segundo os monges, os demônios podem conduzir os homens a doenças psíquicas: esquizofrenia, epilepsia, loucura e histeria, alguns impelidos ao suicídio.


Para Jung estas eram tentativas de explicar os fenômenos, para o psicólogo, a causa central estaria na projeção, que impede o ser humano de ver a realidade com tal. Segundo ele, os complexos nos levam a agir compulsivamente e adquirirem certa autonomia.


Muitas vezes tais complexos alcançam o domínio sobre o eu. Através do complexo da alma – repressões de ordem moral ou estética, excluídos da convivência -, por meio do complexo de espírito – conteúdos do inconsciente coletivo que penetram nossa consciência -. Geralmente tais complexos e afetos modificam-se em complexos autônomos.


Logo, lidar com os demônios é procurar exteriorizá-los de nosso inconsciente, afim de defender-nos contra eles, sobretudo no âmbito dos afetos e emoções.




Reflexão feita a partir do livro:



GRÜN, Anselm. Convivendo com o mal - A luta contra os demônios no monaquismo antigo. Petrópolis-RJ: Vozes, 2010. p. 17-24.



Recomendo a leitura, um excelente livro!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Oração como terapia, libertação do ser


A primeira linguagem pela qual Deus se comunica a nós é o silêncio. O ser humano tem a necessidade de descansar na presença de Deus.

A oração é o caminho para este relacionamento entre Deus e o homem, assim quando falamos em oração centralizadora, estamos falando sobre um exercício de intenção, em que por meio de uma palavra sagrada (exemplo: Terço da Misericórdia – Pela vossa dolorosa paixão... Tende misericórdia de nós e do mundo inteiro) expressamos nossa intenção de experienciar Deus dentro de nosso interior via contemplação.

Tal caminho leva-nos a uma decisão, opção, direcionamento de nossa vontade em vista do amor divino que não é sentimento. Na oração nos permitimos aceitar a ação divina em nossa vida. Quando nossa vontade é direcionada a espiritualidade, vamos adquirindo o hábito de submissão a presente ação de Deus em nossa alma.

A oração atua de forma terapêutica, levando-nos a uma libertação do sentimento de ser indigno do amor, tendo em vista que há uma necessidade em nosso ser de amar e ser amado, uma vez que nascemos do amor e para o amor. A palavra sagrada que utilizamos para oração, serve para nos ajudar a focalizar nossa intenção. No momento oracional fazemos uma viagem e aí somos libertos de nossas fixações e reconfigurados em nossas emoção (força que nos move), por vezes recalcadas em nosso inconsciente.

Logo, quando vamos tomando consciência geral da presença de Deus junto a nós, confiando a Ele nossa vida, através de nossa oração de simplicidade (como o agir da criança), somos de fatos purificados em todo o nosso interior e assim estabelecemos uma harmonia entre Deus, a alma e o próximo.

Embusca de si mesmo


Santa Teresa em seu livro Castelo Interior, faz a analogia que nossa alma é um castelo e esta possui muitos aposentos e moradas.

O universo interior, que é a nossa alma, muita vezes é por nós abandonado, e para adentrá-lo necessário nos é a oração, porta de entrada do castelo. Por vezes, nossa inteligência se acha capaz de compreender a Deus, quando não é. Santo Agostinho certa vez escreveu “se Deus fosse possível de ser compreendido deixaria de ser Deus”, pois caberia em nossa simples razão. Não nos esqueçamos de que há uma grande diferença em o Criador e a criatura, pela bondade de Deus fomos criados a sua imagem, e é a partir daí que nós tentamos dizer o indizível.

Sobre as riquezas existentes na alma pouco sabemos, dentro deste castelo interior ocorrem coisas secretas entre Deus e a alma. Para que possamos experienciar as provas do amor de Deus, a nós oferecidas, se faz necessário a fé (crer). Santo Agostinho em suas confissões nos relata: “Tu estavas dentro de mim, e eu Te procurava fora, onde me precipitava sobre as belas coisas da terra, tuas obras”. Assim, é possível dizer que existem maneiras diferentes de estar num mesmo lugar, há almas que estão distantes (em coisas exteriores), mas lembremos que a entrada para o castelo interior é a oração e meditação de maneira reflexiva.

Em vista disso, aproximemo-nos de nós mesmos, da alma, é lá se dará o ponto de encontro (Deus e o ser humano), é neste relacionar que o ser humano se descobre enquanto pessoa no mundo, caso contrário perde-se-ia a identidade, fazendo com que a vida fosse simplesmente uma caminhada sem sentido e significado.

Ser livre e conduzido pelo amor


Ao escrever que (Deus há de ser amado), São Bernardo nos lança justamente um questionamento muito profundo, o amor a si e o amor a Deus. Coloca-nos numa perspectiva de que a caridade é a chave de libertação do ser humano de forma integral.

O santo nos apresenta que muitas vezes buscamos um amor (de nós mesmos – narcísico), e não o amor por ele mesmo, deixando transparecer que a condição humana busca confiar em si mesma (busca o que é bom para si), quando deveria confiar em Deus, especificamente na pessoa do Filho que é caridade revelada.

Quando o ser humano é movido por esta caridade proveniente de Deus, as almas se convertem, tornam-se livres para fazer o bem. A caridade (o amor) é tão grandiosa que não guarda nada de si, é doação sempre. Deus vive uma Lei, e esta é a caridade, de substância divina, porque dEle provém, e é eterna, e por meio dela é que o universo foi criado.

O ser humano se torna escravo a medida que vive apenas por sua própria lei, e esta o leva a viver apenas para si (egoísmo) e não para o outro (altruísmo).

Santo Agostinho em seu livro De civitate Dei descreve: “Dois amores fundaram duas cidades, a saber, o amor próprio levado ao desprezo de Deus, a terrena; o amor de Deus levado ao desprezo de si próprio, a celestial. Uma gloria-se em si mesma, a outra em Deus. Aquela busca a glória dos homens, e esta tem por máxima glória de Deus, testemunha de sua consciência”.

Portanto, cabe-nos pensar que o ser humano conduzido pela Lei de Deus é capaz de tornar-se bom e também a humanidade, uma bondade de não provém justamente de si, mas de Deus, e quando fecha-se em si mesmo, negando o amor de Deus, torna-se árido, sem vida, contribuindo para que o mal se levante mediante a carência do bem que do amor procede.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

DESCOBRINDO-SE ENQUANTO PESSOA NA RELIGIÃO



A descoberta de si nem sempre é algo fácil, exige esforço da parte de quem a procura, caminho muitas vezes difícil que implica dor, sofrimento para se chegar à descoberta que traz felicidade, alegria, realização. Por isso, “o amor só é amor se já provou alguma dor” já dizia Pe.Fábio de Melo em uma de suas canções.
Cristo para levar a cada um de nós a descoberta do amor que anunciara, sofreu em nosso lugar, “tendo Ele amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” Jo 13,1. A grande descoberta que nos é necessária é a de nos descobrirmos enquanto pessoas, pessoas que tem amor dentro de si, que possuem potencial para amar e também para receber amor.
Tudo o que fazemos na vida se não tiver em vista o amor, deixa de ser essência e se torna apenas aparência, representação. Paulo relata uma experiência profunda deste amor que experienciou em Cristo, “por amor a ti somos entregues à morte o dia todo; fomos considerados como ovelhas para o matadouro” Rm 8,36. O amor exige luta, implica em rompimento com o efêmero, é vivencia que trás vida e que exclui o medo.
No livro do Gênesis encontramos uma citação onde diz “ambos estavam nus, o homem e sua mulher estavam nus, sem sentirem vergonha um do outro” Gn 2,23-25. Estavam livres, havia sinceridade entre eles, havia amor, havia unidade. Quando comem o fruto proibido, Adão tem medo de se mostrar a Deus em virtude de sua decisão que foi feita na escuridão, feita as escondidas, sem consultar a Deus que sempre se manifestou sincero a ele.
No mesmo livro encontramos Adão dizendo: “Ouvi a tua voz no meio do jardim, tive medo porque estava nu, e me escondi” Gn 3,10. A nudez não é o problema, mas o medo que é provocado quando não agimos com sinceridade em relação ao outro, no caso aqui Adão em relação a Deus.
Durante muito tempo carregamos uma ideia errônea de que Deus nos castiga, que Ele nos condena, que Ele nos persegue, que está disposto a nos condenar sempre pelos nossos desacertos. Na verdade as culpas que carregamos em virtude de acontecimentos conscientes ou não, nos fragilizam, e como não queremos assumir, “aceitar” tais ocorridos, nos responsabilizar pela nossa vida, projetamos em Deus o papel do juiz castigador, quando na verdade o que ocorre é que não nos aceitamos, pois não somos sinceros – não ficamos nus – diante de nós mesmos, e então sofremos.
Aqui entra o papel da religião, de apresentar Deus de fato como Ele é – amor -, um Deus solidário, que sempre está disposto a se reconciliar com o ser humano. Em Lc 19,9 Jesus diz a Zaqueu: “hoje a salvação entrou em sua casa”. Em Lc 7,47 Jesus diz a pecadora “teus inúmeros pecados te são perdoados, porque tem demonstrado muito amor”.
Jesus é apresentado pelos evangelistas como subversivo em relação aos doutos e sábios da época, é contrário a toda hipocrisia que a religião da época - atrelada a sistema econômico -, que oprimia e excluía os menos favorecidos. Jesus entra neste contexto e retira os fardos que colocaram sobre estas pessoas, faz reviver naqueles que encontra a vida que estava sufocada por um sistema que matava. E diz em um de seus diálogos proclama: “Em verdade vos digo, os coletores de impostos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” Mt 21,31, e o Reino de Deus consiste em justiça, amor, paz, fraternidade. Não é que Jesus faz apologia ao pecado, mas vai ao encontro do pecador que necessita do amor, pelo amor é que ocorre a conversão, e somente pelo amor que é possível dar sentido a existência humana.
Portanto, o descobrimento de si e o contato com a religião tende a nos levar a uma sinceridade conosco, com o próximo e com Deus, caso contrário viveremos presos a efemeridades e aparências, que não colaboram para o descobrimento de nossa essencialidade, mas apenas nos aprisiona, nas palavras de Paulo “a letra mata, mas o Espírito vivifica” II Cor 3,6. É momento de repensarmos nossa história, e dar espaço para que o amor encontre em nós o seu lugar. É tempo de reviver, tempo de amar.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A FACE DE DEUS NA HUMANIDADE



Deus que é pai criou-nos em seu amor para o amor, e não deseja outra coisa que não seja nossa felicidade e nossa realização.
Deus derramou a priori sobre a humanidade sua graça, fomos criados na graça de Deus, em harmonia com Ele. Como pai, desejou ardentemente em seu coração que o ser humano vivesse com Ele (em comunhão) e não distante dele.
Mas infelizmente o ser humano preferiu o poder ao amor, quis caminhar sozinho por meio de suas escolhas, de sua liberdade, achou que era capaz de dar passos sem necessitar daquele que o havia criado com tanto amor. Essa opção gerou para nossa humanidade aquilo que chamamos de pecado original, que consiste no distanciamento do Pai e de seu projeto de amor, e distante do Criador, a humanidade sofre o caos provocado por suas próprias escolhas.
O interessante é que não é Deus que se aparta de nós, mas em nossa livre escolha, preferimos escolher por certos caminhos, e nestas escolhas sofremos, porque não queremos ouvir aquele que é amor pleno, optamos em nos deixar conduzir pelo orgulho e pela auto-suficiência.
Estas escolhas implicam diretamente no poder, poder no sentido de não querer precisar do Criador, que leva-nos a perder-nos no tempo, na vida, na história. Querer caminhar longe do amor leva-nos a vivenciar o desamor, o não amor. E não há vida fora do amor. A morte (corpo – emoção – espiritual) vai aos poucos ocorrendo em virtude da sede e da fome que o ser humano tem do amor, mas que rejeitando a ajuda daquele que é pai, leva-o a um processo de esfacelamento do ser, perda de sentido e de significado no tempo. Longe do amor só temos a perder.
Existe tanta fome no mundo, tanta injustiça, tanto ódio, tantas pessoas morrendo às margens da sociedade, e a explicação que encontramos diante de tais fatos apontam para uma carência que o ser humano possui do amor. Nascemos do amor e para o amor, a não vivência deste amor, distancia o homem dos valores axiológicos que estão presentes em seu coração, fecha-o a voz de Deus, e assim as leis que não estão em tábuas ou em pedras, mas escritas no coração, deixam de ser seguidas.
A revelação de Jesus na história foi à própria manifestação do amor do Pai a cada um de nós, Jesus se fez um de nós a fim de assumir nossa condição humana, exceto no pecado (falta de amor – não escuta do Pai), mesmo diante das dificuldades que a vida impõe a cada um de nós, não se deixou conduzir pelo poder dos homens, mas pelo amor e pela misericórdia, foi capaz de superar a maldade dos homens, que tem seu fundamento no poder, na ambição, no egoísmo.
Jesus foi um homem tão humano e ao mesmo tempo tão divino. Esteve ao lado daqueles que mais necessitavam de seu amor, esteve com os pecadores, com os excluídos, com as mulheres que na época eram excluídas, com o cobrador de impostos, com os fariseus. Ele foi à luz que clareou a escuridão que a própria humanidade causou quando escolheu viver longe do amor de Deus, vida dos seres humanos. As sombras foram vencidas por Jesus de Nazaré. Um amor tão profundo do Pai pela humanidade, que o próprio Filho em unidade com o Pai nos revelou em amor e por amor, um amor iluminador que reluziu em toda pessoa humana, assim pra sempre a história foi perpassada pela manifestação do sagrado. Infelizmente, Jesus foi rejeitado por aqueles que não aceitaram sua luz, e então pela maldade dos homens, presos ao poder e as leis (perpassadas por interesses egoístas), levaram a cruz o Senhor da vida, mataram assim a lei maior, o próprio amor encarnado.
Mas Jesus foi capaz de vencer a maldade dos homens, foi vitorioso, por meio de sua encarnação, os corações foram verdadeiramente despertos do sono letárgico que a humanidade havia adentrado, e por ele um novo caminho a humanidade conheceu. O próprio amor divino relevado aos homens (em profunda oração e unidade com o Pai) foi traduzido em gestos concretos, instaurou o Reino de Deus, que consiste no amor e no serviço.
A cruz não foi o fim, não foi o definitivo, mas por meio dela Jesus conquistou a liberdade e o amor para toda humanidade (estabeleceu a aliança que havíamos perdido com o Pai), sendo Ele inocente, se solidarizou conosco. Assim, o crucificado é o ressuscitado, exaltado pelo Pai, ele é o amor pleno, a salvação da humanidade. Ele é o próprio amor, e somos convidados a seguí-lo. Jesus demonstrou ao ser humano que este também é capaz de superar o mal, a medida que configura seu coração ao dele, e esta configuração leva a atitudes traduzidas na própria vida.
Portanto, permitamos que o Verbo que se fez carne adentre nosso coração, a Palavra quando lida, meditada e encarnada é capaz de nos tornar novos seres humanos, não mais conduzidos pelo poder dos homens, mas pelo amor do Pai, que se manifesta em nós por meio da ação do Espírito Santo. Todos os que se deixam conduzir pelo amor do Pai e do Filho por meio do Espírito Santo se tornam homens novos, mulheres novas. Conduzidos por tal amor somos capazes de cotidianamente superar o mal, de vencer as desigualdades sociais, de vencer as crises contemporâneas que enfrentamos e assim ver a face de Deus na humanidade, não uma face esfacelada pela maldade dos homens, mas uma face gloriosa ressurgida por meio daqueles que ouvem a voz de Deus e que por ela se deixam conduzir, assim que o amor seja nossa única lei, que substituamos o poder pelo amor, a mentira pela verdade e o medo pela liberdade que brota da fé no Cristo
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