Este blog tem como objetivo levar o leitor a uma reflexão mais ampla sobre si e sobre o mundo, ajudando na amplitude da dimensão do ser e do viver.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Por falar de amor
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Repensar nossa história
domingo, 30 de outubro de 2011
A importância da meditação

O silêncio é o caminho para ouvirmos e entendermos algo. Nosso existir em Deus tem “peso imenso e eterno” II cor 4,17.
A Palavra que Deus nos dirige tem como lugar de acolhimento o nosso coração. Para que possamos contemplá-la, precisamos nos esvaziar de nossa vontade autônoma e nos dirigirmos ao encontro da profundeza do amor de Deus, que sempre age desinteressadamente.
Neste contexto, Deus acolhe nosso vazio e o preenche com sua própria dádiva, seu amor. Em nosso abandono, nos deparamos com Jesus Cristo, que é Palavra definitiva de Deus. Neste meditar utilizamos de nossos sentidos e imaginação, expressando nosso crer e assim abrindo-nos para o divino.
No Mistério Pascal (paixão, morte e ressurreição), vemos em Jesus esta pessoa incomparável – Homem e Deus ao mesmo tempo -, que é sempre uno e indivisível. Nas Bem-Aventuranças, iluminou seus discípulos de maneira definitiva, correspondendo a eles em seus anseios mais profundos conforme a Antiga Aliança anunciava “os pobres de Javé”.
Na Cruz, expressou a extrema pobreza de espírito, mas por ele fomos convidados a não pararmos na cruz, mas a olharmos o amor supremo consumado, nele recebemos a “Revelação”, o “bem aventurado”.
A bem aventurança de Jesus tem seu ápice em seu aniquilar-se, tornando-se dessa forma, espaço vital em prol de todos os homens. Esse era o seu modo de pensar.
Portanto, Cristo assim exprimiu o ideal a ser seguido, o ideal que ele mesmo é, e o ideal que Deus é como Uno e Trino. Dessa maneira, que através da meditação saibamos nos abandonar e encontrar a Cristo que nos conduz ao Pai.
Reflexão feita a partir do livro:
BALTHASAR, Hans Urs Von. Meditar como cristãos. Tradução: Pe. Clóvis Bovo, C.Ss.R. Aparecida-SP: Santuário. p.18-29.
Um bom livro para quem quer se aprofundar na meditação (oração).
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Embusca de si mesmo

Santa Teresa em seu livro Castelo Interior, faz a analogia que nossa alma é um castelo e esta possui muitos aposentos e moradas.
O universo interior, que é a nossa alma, muita vezes é por nós abandonado, e para adentrá-lo necessário nos é a oração, porta de entrada do castelo. Por vezes, nossa inteligência se acha capaz de compreender a Deus, quando não é. Santo Agostinho certa vez escreveu “se Deus fosse possível de ser compreendido deixaria de ser Deus”, pois caberia em nossa simples razão. Não nos esqueçamos de que há uma grande diferença em o Criador e a criatura, pela bondade de Deus fomos criados a sua imagem, e é a partir daí que nós tentamos dizer o indizível.
Sobre as riquezas existentes na alma pouco sabemos, dentro deste castelo interior ocorrem coisas secretas entre Deus e a alma. Para que possamos experienciar as provas do amor de Deus, a nós oferecidas, se faz necessário a fé (crer). Santo Agostinho em suas confissões nos relata: “Tu estavas dentro de mim, e eu Te procurava fora, onde me precipitava sobre as belas coisas da terra, tuas obras”. Assim, é possível dizer que existem maneiras diferentes de estar num mesmo lugar, há almas que estão distantes (em coisas exteriores), mas lembremos que a entrada para o castelo interior é a oração e meditação de maneira reflexiva.
Em vista disso, aproximemo-nos de nós mesmos, da alma, é lá se dará o ponto de encontro (Deus e o ser humano), é neste relacionar que o ser humano se descobre enquanto pessoa no mundo, caso contrário perde-se-ia a identidade, fazendo com que a vida fosse simplesmente uma caminhada sem sentido e significado.
Ser livre e conduzido pelo amor

Ao escrever que (Deus há de ser amado), São Bernardo nos lança justamente um questionamento muito profundo, o amor a si e o amor a Deus. Coloca-nos numa perspectiva de que a caridade é a chave de libertação do ser humano de forma integral.
O santo nos apresenta que muitas vezes buscamos um amor (de nós mesmos – narcísico), e não o amor por ele mesmo, deixando transparecer que a condição humana busca confiar em si mesma (busca o que é bom para si), quando deveria confiar em Deus, especificamente na pessoa do Filho que é caridade revelada.
Quando o ser humano é movido por esta caridade proveniente de Deus, as almas se convertem, tornam-se livres para fazer o bem. A caridade (o amor) é tão grandiosa que não guarda nada de si, é doação sempre. Deus vive uma Lei, e esta é a caridade, de substância divina, porque dEle provém, e é eterna, e por meio dela é que o universo foi criado.
O ser humano se torna escravo a medida que vive apenas por sua própria lei, e esta o leva a viver apenas para si (egoísmo) e não para o outro (altruísmo).
Santo Agostinho em seu livro De civitate Dei descreve: “Dois amores fundaram duas cidades, a saber, o amor próprio levado ao desprezo de Deus, a terrena; o amor de Deus levado ao desprezo de si próprio, a celestial. Uma gloria-se em si mesma, a outra em Deus. Aquela busca a glória dos homens, e esta tem por máxima glória de Deus, testemunha de sua consciência”.
Portanto, cabe-nos pensar que o ser humano conduzido pela Lei de Deus é capaz de tornar-se bom e também a humanidade, uma bondade de não provém justamente de si, mas de Deus, e quando fecha-se em si mesmo, negando o amor de Deus, torna-se árido, sem vida, contribuindo para que o mal se levante mediante a carência do bem que do amor procede.
domingo, 16 de janeiro de 2011
RESENHA - EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL VERBUM DOMINI
RESENHA
Exortação Apostólica Pós-Sinodal VERBUM DOMINI
Sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja
Papa Bento XVI
BENTO XVI, Exort. ap. Pós-sinodal Verbum Domini (30 de Setembro de 2010). 2ª Ed. São Paulo: Paulinas.
A prioridade que se concluiu no Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus em setembro de 2008 é de elevar o coração do homem ao coração de Deus (um reabrir-se) para que este “tenha vida em abundância” Jo 10,10. A XII Assembleia Sinodal voltou-se a redescoberta de que Deus nos fala e responde às nossas perguntas por meio das Escrituras.
Diz o papa a respeito do Sínodo, no sentido de influir de maneira eficaz na vida da Igreja o aprofundamento no estudo da Palavra, uma vez que nosso fundamento de nossa fé é o próprio Verbo: “Sobre a relação pessoal com as Sagradas Escrituras, sobre a sua interpretação na liturgia e na catequese bem como na investigação científica, para que a Bíblia não permaneça uma Palavra do passado, mas uma Palavra viva e atual”1.
Em seu infinito amor Deus da-Se-nos a conhecer. Sendo nós imagem e semelhança dEle, só nós conhecemos nEle. “A expressão 'Palavra de Deus' acaba por indicar aqui a pessoa de Jesus Cristo, Filho eterno do Pai feito homem”2. “Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo (cf. Jo 1,3), oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo na criação”3.
Tudo o que existe, provém da Palavra que é fundamento da realidade. As efemeridades que nosso mundo hodierno nos apresenta não nos preenche, não nos edifica e não nos propicia raízes sólidas. Ao longo do tempo Deus nos falou por meio dos profetas e, seu amor, sua Palavra Se revelou no Filho (Jesus), o Logos. A Palavra teve empiricamente forma humana, vista, ouvida e testemunhada pelos apóstolos. Na cruz a Palavra se silencia, e a todos os que com Ele crucificam sua carne tornaram-se livres, uma aliança que se solidificou, por meio de Jesus que na ressurreição, tornou-Se à luz a iluminar todo o gênero humano e toda criação.
“Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra e não tem outra, Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer (...)”4. Deus nos inspira por meio de seu Espírito, e a Sagrada Escritura contém a Palavra de Deus que nos direciona a vivermos uma vida segundo a vontade do Pai. A Escritura não vai contra os anseios do homem, mas o ilumina, o purifica em suas realizações, levando-nos assim a compreender que a fé está intimamente ligada a Palavra.
O pecado que habita o coração humano é revelado pela Palavra de Deus, que nos torna conscientes que o pecado consiste em “não-escutar”, em desobedecer a Deus. Em Cristo que é a própria Palavra, encontramos misericórdia e redenção para o nosso pecado, através da escuta de Sua Palavra. Maria é o símbolo de abertura a Deus, nela a Palavra tomou forma, encarnou-se.
“As palavras divinas crescem juntamente com quem as lê. Assim, a escuta de Deus introduz e incrementa a comunhão eclesial com todos os que caminham na fé”5. No estudo da Sagrada Escritura, somente quando se observa os dois níveis metodológicos, histórico-crítico e teológico, é que se pode falar de uma exegese teológica, de uma exegese adequada a este livro”6.
São Paulo descobre que “o Espírito libertador tem um nome e que a liberdade tem, consequentemente, uma medida interior”. “O Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor há liberdade” (2 Cor 3,17)7, criando assim um elo entre o Antigo e o Novo Testamento. O Antigo e o Novo testamento estão intimamente ligados, ambos fazem referência a manifestação de Deus na história, de modo objetivo à pessoa de Jesus de Nazaré.
A Sagrada Escritura não pode ser interpretada de uma maneira fundamentalista, mas precisa ser levado em consideração o valor do conteúdo histórico, para que nos aproximemos dessa verdade que é o próprio Deus. Ao longo da história bíblica os profetas se levantaram para exortar os homens e a reconduzi-los ao caminho de Deus.
A interpretação da Sagrada Escritura nos leva a uma vida de unidade, tal como o desejo de Jesus “Pai que todos sejam um” (Jo 17,21). Não podemos desprezar também o testemunho dos santos, que vivendo a Palavra deram exemplo com a própria vida e estes se tornaram referência para que interpretemos bem o que nos propõe as Escrituras.
A Igreja é anunciante desta Palavra, de maneira particular na liturgia, onde no Centro está o grande Mistério Pascal, nEle estão intimamente ligados todos os mistérios de Cristo. Assim, “Palavra e Sacramento estão sempre juntos, “pois não há separação entre o que Deus diz e faz”8.
Neste sentido, a Palavra anunciada nas celebrações precisa ser ouvida e meditada, as homilias e pregações devem trazer como centro o próprio Cristo, que primeiramente ouvimos através da Palavra, em seguida trazemos para o nosso interior e por último somos convidados a vivenciar a Palavra na comunidade de maneira concreta. Desta forma, que na vida do cristão Palavra e testemunho caminhem lado-a-lado.
Valorizar a Celebração da Palavra, que é momento e lugar de encontro com o Senhor, sem é claro, confundirmos com a Celebração Eucarística, é sem dúvida uma maneira de aproximarmos a Palavra, do povo de Deus. Prezar pelo silêncio e adoração, é também uma forma que Deus fala ao seu povo. A Liturgia das Horas também fortifica a vida de oração. É necessário valorizarmos mais a Palavra, reservando um lugar de destaque para a Bíblia em nossas Igrejas e comunidades (sem retirarmos o foco do sacrário). Que em nossas casas tenhamos a Bíblia em um lugar de destaque, para que possamos rezar diariamente. Todos esses esforços são necessários e, que nos empenhemos para que a Palavra chegue as mãos de nossos irmãos.
Precisamos nos aprofundar em nosso relacionamento com a pessoa de Jesus, para isso somos convidados a criar em nossas comunidades um tipo de “serviço de animação bíblica” em que conheçamos e estudemos a fundo as Escrituras. A catequese é um lugar privilegiado para o aprendizado da Palavra, ao lado da tradição (Catecismo da Igreja Católica) que nos ajuda na compreensão da vontade de Deus. O aprofundamento nesta Palavra nos remete a busca pela santidade, pois a Palavra nos forma. Assim, os bispos, sacerdotes e ministros da Palavra são convidados por meio do testemunho a buscarem uma vida de intimidade com a a Palavra. O estudo bíblico e a oração para com a Escritura, devem estar intimamente ligados. Tal procedência nos remete a buscarmos o sentido para nossa existência “indica ao mundo de hoje que é mais importante e, no final de contas, a única coisa decisiva, existe uma razão última pelo qual vale a pena viver, isto é, Deus e seu amor imperscrutável”9.
O Evangelho precisa ser difundido no mundo, e para isso a Igreja conta com a ajuda dos leigos, através deles, por meio do matrimônio, no testemunho cristão aos filhos, essa Boa Nova vai sendo transmitida. A mulher nesse cenário ocupa um lugar privilegiado, pois esta traz em si a ternura, tão importante no anúncio da Palavra. Dessa forma, “é muito importante a leitura comunitária, porque o sujeito vivo da Sagrada Escritura é o Povo de Deus, é a Igreja […] A Escritura não pertence ao passado, porque o seu sujeito, o Povo de Deus inspirado pelo próprio Deus, é sempre o mesmo, e portanto, a Palavra está sempre viva no sujeito vivo”10.
A Lectio Divina é também um caminho para o encontro com o Cristo, que consiste na leitura da Palavra (o que diz o texto em si), a meditação (o que nos diz o texto), a oração (nossa resposta ao Senhor à Sua Palavra) e a contemplação (mudança que Deus nos pede para vida). A oração do Angelus Domini (No amanhecer, ao meio dia e ao entardecer) também é uma forma de rememorarmo-nos a encarnação do Verbo.
“O Verbo de Deus comunicou-nos a vida divina que transfigura a face da terra, fazendo novas todas as coisas (cf. Ap 21,5). A Sua Palavra envolve-nos não só como destinatário da revelação divina, mas também como seus arautos”11. Nas Palavras de Bento XVI: “Ele é aquele Deus que possui um rosto humano e que nos 'amou até o fim' (Jo 13,1)”. Por isso, a Igreja é missionária, pois a Palavra deve ser anunciada para toda humanidade.
Para uma boa eficácia de uma nova evangelização é preciso o anúncio e também o testemunho como ressaltara o papa João Paulo II. “A própria Palavra nos recorda a necessidade do nosso compromisso no mundo e a nossa responsabilidade diante de Cristo, Senhor da história. Quando anunciamos o Evangelho, exortamo-nos reciprocamente a cumprir o bem e a empenharmo-nos pela justiça, pela reconciliação e pela paz”12.
“A evangelização e a difusão da Palavra de Deus devem inspirar a sua ação no mundo à procura do verdadeiro bem de todos, no respeito e promoção da dignidade de toda a pessoa”13. “Escutando com ânimo disponível a Palavra de Deus na Igreja, desperta-se “a caridade e a justiça para com todos sobretudo para os pobres”. É preciso nunca esquecer que “o amor – caritas – será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa […]. Quem quer desfazer-se do amor prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem”14.
O amor a Deus e ao próximo traduzem de maneira concreta o compreendimento da Escritura. Cristo é o melhor arquétipo para formação da juventude, para o ser humano, a nos fazer deparar com o que há de mais excelso em nossa condição humana. Deus se dá todo a nós.
O anúncio da Palavra deve chegar àqueles que sofrem de enfermidade física, psíquico e espiritual. “A vida humana digna de ser vivida plenamente, mesmo quando está debilitada pelo mal”15. A exploração da natureza é uma outra questão levantada, uma arrogância a não obediência da Palavra criadora, pois a obediência promove uma ecologia autêntica.
Dessa forma, para que a Palavra produza seu efeito em nossa vida e no mundo, torna-se de suma importância que “cada cultura deve estar aberta à transcendência, em última análise, a Deus”16. A Bíblia possui uma variedade de elementos antropológicos e filosóficos que contribuíram com a humanidade. Nesta contribuição está também a Arte (arquitetura, literatura e música). Utilizar dos meios de comunicação para o anúncio dessa Palavra é também um passo importante em nosso tempo.
A aculturação se torna um meio positivo na divulgação da Palavra de Deus, pois através da tradução da Bíblia em outras línguas, esta colabora de forma significativa para todas as culturas, através dos valores contidos no Evangelho.
Portanto, a Palavra de Deus é capaz de se manifestar nas diversas culturas e línguas distintas, gerando união e comunhão entre os povos. “A Igreja reconheceu como parte essencial do anúncio da Palavra o encontro, o diálogo e a colaboração com todos os homens de boa vontade”17. Como disse Bento XVI “o anúncio da Palavra cria Comunhão e gera alegria”18. Assim, movidos por esta Palavra que criou o mundo e que move o ser humano, que possamos semear esta Palavra em todos os lugares (em nossas famílias, em nossas comunidades, em nosso trabalho, em nossas escolas), e movidos pelo Espírito que inspirou os escritores sagrados, que possamos refletir na sociedade e no próprio planeta a encarnação do Verbo, e dizer como Paulo “por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. O mundo antigo passou, eis que aí está uma realidade nova” (II Cor 5,17).
1Verbum Domini, § 5
2Ibid., § 7
3Ibid., § 8
4Ibid., § 14 – citando São João da Cruz
5Ibid., § 30
6Ibid., § 34
7Ibid., § 38
8Ibid., § 53
9Ibid., § 83
10Ibid., § 86
11Ibid., § 91
12Ibid., § 99
13Ibid., § 100
14Ibid., § 103
15Ibid., § 106
16Ibid., § 109
17Ibid., § 117
18Ibid., § 123
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Ano Novo, configuração do nosso coração ao coração de Cristo!
O ano de 2010 rapidamente vai ficando para traz, e adentramos num novo ano, mas para além de uma cronologia, é tempo de renovarmos nosso ser, retirar aquilo que de fato foi encrostado no decorrer da história, e abrirmo-nos a um tempo novo, um tempo de graça que provém do Cristo.
O novo sempre nos revela, traz à luz aquilo que até então estava escondido, e que agora nos é desvelado. Em sua recente Exortação Apostólica Pós-Sinodal (Verbum Domini), § 14, o papa Bento XVI, citando São João da Cruz diz: “Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é sua Palavra – e não tem outra – Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem pra dizer […]. Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é seu Filho”.
Somos convidados a acolher esta boa nova, tendemos ao saber, e em Jesus temos uma vida nova e realmente transformada, aprendemos a compreender que o prazer e as efemeridades deste tempo não são sinônimos à felicidade, e que a felicidade passa pela Cruz, afim de se atingir a plenitude – Ressurreição -. Hannah Arendt em seu livro - A Condição Humana - escreve: “[...] quem deseje fazer do prazer o fim último de toda ação humana, é levado a admitir que não o prazer, mas a dor, não o desejo, mas o medo, são os seus verdadeiros guias”. Em sua Carta Encíclica João Paulo II nos exorta: “Na contraposição paulina do “espírito” e da “carne” encontra-se inscrita também a contraposição da “vida” à “morte”. Trata-se de um grave problema acerca do qual é necessário dizer, de imediato, que o materialismo, como sistema de pensamento, em todas as suas versões, significa a aceitação da morte como um termo definitivo da existência humana” Dominum et Vivificantem § 57.
Faz-se necessário em nossos dias um revisar da consciência, um voltar-se as origens, para que o homem redescubra o sentido de sua existência. “Somente o Espírito Santo pode convencer do pecado dos primórdios do ser humano, exatamente ele que é o Amor do Pai e do Filho, ele que é Dom, enquanto o pecado do princípio humano consiste na mentira e na recusa do Dom e do Amor, os quais decidem do princípio do mundo e do homem” Dominum et Vivificantem § 35.
Portanto, neste novo ano que vamos adentrando, saibamos acolher esta grande novidade tão antiga e tão nova, o próprio Cristo, e com Ele saibamos construir uma vida edificada na verdade que nos é revelada pelo Espírito Santo, e que sejamos solidários e promotores de um mundo novo, onde reine a justiça, a paz e o amor.
Feliz Ano Novo !
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
NATAL, Jesus nasça em mim!
O ser humano, como em nenhum outro tempo vive um vazio existencial tão profundo como em nossos dias. A humanidade cresce, evolui, potencializa o ser humano a viver, a buscar o prazer, a ser feliz, mas infelizmente regride enquanto ser eterno e se afasta das coisas do alto.
Jesus, o próprio amor, se revelou na humanidade para comunicar a boa nova do Pai, Ele é a própria vida que dá sentido ao ser humano, quando este se permite ser tocado por seu amor eterno. Uma das dimensões do amor é filia – amizade -. Jesus enquanto esteve com os seus no evento histórico, demostrou claramente esse amor “amigo”. Nas palavras de João, o evangelista releva algo desta intimidade “já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” Jo 15,15. O próprio Senhor nos demostra que a amizade é um dos caminhos pelo qual o amor de Deus chega ao coração do homem, e não o escraviza, mas ao contrário, dá a conhecer tudo aquilo que possui em excelência, como Jesus nos revelou aquilo que ouviu do Pai e conosco partilhou.
Portanto, que neste Natal possamos pedir a graça de estabelecermos nossa amizade com Deus, que Jesus nasça em nosso coração, dentro desse vazio que enfrentamos em nossa atualidade, e peçamos que Ele, a sua palavra que é vida, cresça em nós e nos leve ao seu seguimento, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” Jo 13,1.
Feliz Natal e um abençoado Ano Novo.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
A MISSÃO DO SER HUMANO: DESCOBRIR-SE
O ser humano é um ser inacabado, que mediante a própria existência vai se edificando, escreve sua própria história, e almeja por sua felicidade.
O pessoa humana é relacional, somos seres de relação, precisamos do outro (alteridade) na construção da nossa personalidade, mas não podemos permitir que nossa história seja apenas sobre outro, fazendo-nos perder a identidade, as vezes faz-se necessário tomar as rédeas da própria vida neste processo de descobrimento. Para o filósofo Sêneca, “é preciso atentar para não seguir tal como ovelha o rebanho à frente porque, não sabendo para onde ir, vai para onde as outras se dirigem. Realmente, nada mais pernicioso que se adequar à opinião pública, tendo por mais acertado o que é consensual. Como atestam numerosos exemplos, acontece findar vivendo não de acordo com a razão e, sim, imitando aos outros”1.
Há em nós uma procura pela verdade, queremos ir além das nossas realidades, é um desejo. No pano de fundo, buscamos a vida e nos afastamos da morte. Em nosso cotidiano nos deparamos com situações que ora nos vivificam e ora nos matam. Segundo Hannah, “o bem ao qual o amor aspira é a vida, e o mal que o medo afasta é a morte. A vida feliz é a vida que não pode ser perdida”2.
O Conhecer-se dá-se a partir do momento em que permitimos que o amor inunde a realidade do nosso ser, levando-nos a compreender o que somos em nossa singularidade e na compreensão do que o outro é, amando o ser humano em sua totalidade (limites e virtudes), essa aceitação torna-nos compreensíveis. Arendt diz que “o amor ao próximo é, pois a realização concreta da relação retrospectiva para além do mundo, e, ao mesmo tempo, empurra o outro para fora do mundo, para que ele veja o sentido do seu ser. Como sugere a identidade entre ser e ser eterno, ele ama o outro não como alguém que vai morrer (moriturus) mas ama nele aquilo que é eterno, a sua origem apropriada”3.
Quando o amor vai se desvelando em nosso existir, eis que contemplamos o que somos na mais pura intimidade e interioridade, e somos conduzidos à verdade acerca de nós mesmos. Santo Agostinho assim descreve: “Talvez por amarem a verdade de tal modo que tudo de diferente que amam, querem que seja verdade, e, não admitindo ser enganados, também não querem ser convencidos de seu erro. Desse modo, detestam a verdade por amarem aquilo que tomam pela verdade”4.
Portanto, sejamos missionários a adentrarmos o mais profundo do nosso interior, para assim descobrirmos as insondáveis riquezas do nosso ser, encontraremos lá a força necessária para nortear nossa existência, levando-nos a reconciliar e unir, com o outro e com o mundo. Viver é descobrir-se.
1SÊNECA. A vida Feliz. Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal – 43. Tradução: Luiz Feracine. São Paulo: Editora Escala, 2006. p.32
2 ARENDT, HANNAH. O Conceito de Amor em Santo Agostinho. Lisboa: Editora Piaget, 1997. p. 19
3 Ibid., p.117
4SANTO AGOSTINHO. Confissões. Tradução: Alex Marins. São Paulo: Martin Claret. 2007. p.233
terça-feira, 7 de setembro de 2010
A BÍBLIA E A HUMANIDADE
A Bíblia reúne histórias da vida do povo judeu, pessoas que viveram dificuldades, como nós, uma vez que viver implica em esbarrar-se nos limites que são próprios do humano. Quando nossa humanidade acolhe e ouve a voz de Deus, que ressoa em nosso íntimo, então somos capazes de viver como os profetas, que traduziram na vida o que acolheram em seus corações.
No Antigo Testamento temos a busca da terra, apoiados na certeza de uma promessa de Deus para o seu povo. Encontramos a sensibilidade de alguns que colaboraram com Deus, afim de promoverem a vida, de estar ao lado dos que mais necessitavam. Da mesma maneira, o mundo pós-moderno carece ser livre de uma escravidão secularista, neoliberal, individualista, que oprime a tantas pessoas, o que corrobora para a morte, esta é a realidade que enfrentamos hoje.
No Novo Testamento, a promessa que antes tivera sido anunciada ao longo do Antigo Testamento - que externava a libertação do povo -, se revela em Jesus de Nazaré. O que antes era Palavra, agora se torna carne, se torna pessoa como nós, exceto no pecado. Em Jesus encontramos a plenitude do amor. Um amor que foi capaz de vencer o mal e que desperta no coração dos seres humanos aquilo que eles ainda podem ser, quando abandonam o orgulho e se tornam obedientes ao cumprimento da verdadeira lei, uma lei que não está escrita em tábuas e nem em pedras, mas no coração, esta lei é o amor, que nos conduz a ter e a promover a vida em abundância. Quando entendemos e acolhemos o Reino de Deus, que nos fora relevado em Jesus de Nazaré, nossa vida é transfigurada e nos tornamos capazes - à luz de seus ensinamentos -, de iluminar toda a realidade humana. Nele conseguimos vencer o egoísmo, a indiferença, o desamor e principalmente a injustiça.
A Bíblia, ao logo do tempo, foi vista por muitas pessoas de maneira fundamentalista, ou seja, através de uma leitura “ao pé da letra”. Durante a história esse olhar errôneo causou um equívoco em relação a nossa imagem de Deus, tal consequência implicou num mal relacionamento entre Deus e a humanidade. Hoje, a Igreja com a ajuda das ciências humanas, de novos métodos de interpretação, colaboram na compreensão sobre quem é Deus e quem é o humano. Essa compreensão da identidade sobre quem é o homem e quem é Deus, restaura um relacionamento que foi desfigurado ao longo dos séculos, e recria a vida em nós e reergue um mundo novo.
Portanto, deixar-se mover por Deus através das Escrituras, contribui para o objetivo de todo ser humano, que é viver de maneira plena. Nele a humanidade é preenchida, encontra sentido e significado para sua existência, pois todo ser humano é vocacionado ao amor e fora do amor a realização é inexistente. Que escrevamos nossa história no amor e para o amor, tendo um estimado valor pela Bíblia, que nos ajuda na caminhada rumo a civilização do amor.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
DESCOBRINDO-SE ENQUANTO PESSOA NA RELIGIÃO
sexta-feira, 9 de julho de 2010
A FACE DE DEUS NA HUMANIDADE

Deus que é pai criou-nos em seu amor para o amor, e não deseja outra coisa que não seja nossa felicidade e nossa realização.
Deus derramou a priori sobre a humanidade sua graça, fomos criados na graça de Deus, em harmonia com Ele. Como pai, desejou ardentemente em seu coração que o ser humano vivesse com Ele (em comunhão) e não distante dele.
Mas infelizmente o ser humano preferiu o poder ao amor, quis caminhar sozinho por meio de suas escolhas, de sua liberdade, achou que era capaz de dar passos sem necessitar daquele que o havia criado com tanto amor. Essa opção gerou para nossa humanidade aquilo que chamamos de pecado original, que consiste no distanciamento do Pai e de seu projeto de amor, e distante do Criador, a humanidade sofre o caos provocado por suas próprias escolhas.
O interessante é que não é Deus que se aparta de nós, mas em nossa livre escolha, preferimos escolher por certos caminhos, e nestas escolhas sofremos, porque não queremos ouvir aquele que é amor pleno, optamos em nos deixar conduzir pelo orgulho e pela auto-suficiência.
Estas escolhas implicam diretamente no poder, poder no sentido de não querer precisar do Criador, que leva-nos a perder-nos no tempo, na vida, na história. Querer caminhar longe do amor leva-nos a vivenciar o desamor, o não amor. E não há vida fora do amor. A morte (corpo – emoção – espiritual) vai aos poucos ocorrendo em virtude da sede e da fome que o ser humano tem do amor, mas que rejeitando a ajuda daquele que é pai, leva-o a um processo de esfacelamento do ser, perda de sentido e de significado no tempo. Longe do amor só temos a perder.
Existe tanta fome no mundo, tanta injustiça, tanto ódio, tantas pessoas morrendo às margens da sociedade, e a explicação que encontramos diante de tais fatos apontam para uma carência que o ser humano possui do amor. Nascemos do amor e para o amor, a não vivência deste amor, distancia o homem dos valores axiológicos que estão presentes em seu coração, fecha-o a voz de Deus, e assim as leis que não estão em tábuas ou em pedras, mas escritas no coração, deixam de ser seguidas.
A revelação de Jesus na história foi à própria manifestação do amor do Pai a cada um de nós, Jesus se fez um de nós a fim de assumir nossa condição humana, exceto no pecado (falta de amor – não escuta do Pai), mesmo diante das dificuldades que a vida impõe a cada um de nós, não se deixou conduzir pelo poder dos homens, mas pelo amor e pela misericórdia, foi capaz de superar a maldade dos homens, que tem seu fundamento no poder, na ambição, no egoísmo.
Jesus foi um homem tão humano e ao mesmo tempo tão divino. Esteve ao lado daqueles que mais necessitavam de seu amor, esteve com os pecadores, com os excluídos, com as mulheres que na época eram excluídas, com o cobrador de impostos, com os fariseus. Ele foi à luz que clareou a escuridão que a própria humanidade causou quando escolheu viver longe do amor de Deus, vida dos seres humanos. As sombras foram vencidas por Jesus de Nazaré. Um amor tão profundo do Pai pela humanidade, que o próprio Filho em unidade com o Pai nos revelou em amor e por amor, um amor iluminador que reluziu em toda pessoa humana, assim pra sempre a história foi perpassada pela manifestação do sagrado. Infelizmente, Jesus foi rejeitado por aqueles que não aceitaram sua luz, e então pela maldade dos homens, presos ao poder e as leis (perpassadas por interesses egoístas), levaram a cruz o Senhor da vida, mataram assim a lei maior, o próprio amor encarnado.
Mas Jesus foi capaz de vencer a maldade dos homens, foi vitorioso, por meio de sua encarnação, os corações foram verdadeiramente despertos do sono letárgico que a humanidade havia adentrado, e por ele um novo caminho a humanidade conheceu. O próprio amor divino relevado aos homens (em profunda oração e unidade com o Pai) foi traduzido em gestos concretos, instaurou o Reino de Deus, que consiste no amor e no serviço.
A cruz não foi o fim, não foi o definitivo, mas por meio dela Jesus conquistou a liberdade e o amor para toda humanidade (estabeleceu a aliança que havíamos perdido com o Pai), sendo Ele inocente, se solidarizou conosco. Assim, o crucificado é o ressuscitado, exaltado pelo Pai, ele é o amor pleno, a salvação da humanidade. Ele é o próprio amor, e somos convidados a seguí-lo. Jesus demonstrou ao ser humano que este também é capaz de superar o mal, a medida que configura seu coração ao dele, e esta configuração leva a atitudes traduzidas na própria vida.
Portanto, permitamos que o Verbo que se fez carne adentre nosso coração, a Palavra quando lida, meditada e encarnada é capaz de nos tornar novos seres humanos, não mais conduzidos pelo poder dos homens, mas pelo amor do Pai, que se manifesta em nós por meio da ação do Espírito Santo. Todos os que se deixam conduzir pelo amor do Pai e do Filho por meio do Espírito Santo se tornam homens novos, mulheres novas. Conduzidos por tal amor somos capazes de cotidianamente superar o mal, de vencer as desigualdades sociais, de vencer as crises contemporâneas que enfrentamos e assim ver a face de Deus na humanidade, não uma face esfacelada pela maldade dos homens, mas uma face gloriosa ressurgida por meio daqueles que ouvem a voz de Deus e que por ela se deixam conduzir, assim que o amor seja nossa única lei, que substituamos o poder pelo amor, a mentira pela verdade e o medo pela liberdade que brota da fé no Cristo.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
COPA 2010 – BRASIL CAMPEÃO - SOBRE GANHAR E PERDER
A vida é feita de uma luta constante, e a cada momento enfrentamos novos desafios, e neste enfrentamento nem sempre saímos vitoriosos, ora vencemos e ora perdemos.
Durante a nossa história talvez fomos “mal educados” ou nos passaram a ilusão de que sempre precisaríamos vencer, assim fomos sufocando uma outra dimensão da vida que é que a perda, que nem sempre é perda mesmo. Uma árvore que cresceu, um dia foi uma semente, que precisou “perder-se” para se transformar em árvore.
A vida também é assim, aparentemente uma vitória talvez é a coisa mais almejada, desejada, mas a derrota nem sempre é por nós pensada, mas a partir da realidade que ela nos trás, quando tomamos consciência que as coisas não saíram como imaginamos, então vamos descobrindo o seu valor. Imaginemos as tantas quedas que tivemos na vida enquanto bebês ou as quedas de bicicleta, quando aprendíamos a andar, não eram quedas desejadas, porém nos levaram a uma experiência positiva que hoje podemos contemplar.
Nossa seleção brasileira, juntamente com seu treinador Dunga e seus jogadores, também acabam de passar por isto, lutaram, jogavam, tentaram, mas infelizmente as coisas não saíram como o sonhado. O que temos agora é a insatisfação de um público que foi influenciado por tantas propagandas, que nos induziam a pensar que a vitória já era nossa. Enquanto o time ia bem, havia apoio, existia garra, depois que foi desclassificado, parece permanecer um sentimento de abandono. Antes do jogo, muitos torcedores, após a derrota, ninguém para consolar. Nossa vida não é muito diferente desse acontecimento, enquanto ganhamos, apoiamos e quando nos vem o fracasso, então desistimos.
Portanto, saibamos refletir melhor sobre os acontecimentos, nem sempre a derrota é derrota, mas pode se tornar vitoriosa quando valorizamos os esforços que ocorreram durante o processo da competição. E ganhar nem sempre é ganhar, por vezes valorizamos o que foi conquistado, mas não nos atentamos a perceber o empenho que houve para se chegar a vitória. Assim, se valorizarmos em nosso cotidiano as pequenas tentativas de sermos melhores, no sentido de compreender os esforços que fazemos cotidianamente, aprenderemos a descobrir e valorizar os ganhos e as perdas, e então nos tornaremos justos diante da vida e das pessoas que nos cercam, caminhando desta maneira, caminhamos na compreensão do amor que sustenta nossa existência humana.
Parabéns Dunga, parabéns seleção brasileira.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
A PROFUNDIDADE DO AMOR
É interessante pensarmos sobre nossa atual cultura, em que vemos palavras e atitudes sendo traduzidas como amor. Afinal o que é o amor? Renato Russo na canção “Monte Castelo”, utilizando-se da primeira carta de Paulo aos Coríntios e de Camões, e escreve em uma das estrofes: “Estou acordado, e todos dormem, todos dormem, todos dormem. Agora vejo em parte, mas então veremos face a face. É só o amor, é só o amor, que conhece o que é verdade...”.
De fato, é só o amor que conhece a verdade. No grego encontramos o amor em três dimensões: enquanto eros, philia e agape. Eros é o amor que desperta desejo, atração, “envolvimento carnal”. Philia um amor proveniente da amizade e Agape o amor paternal. Todo ser humano tende a passar por estas fases, em nossa contemporaneidade o que percebemos é que as pessoas ainda não compreenderam o sentido do amor e suas dimensões.
Uma vez que este amor não é por nós compreendido, nos perdemos em nossos sentimentos, temos “medo de amar”, pois não tendo conhecimento dele, fica difícil vivenciá-lo. Acredito que a maturidade do ser humano vai chegando a medida em que ele se descobriu e se compreendeu nestas três dimensões. Freud compreendeu magnificamente a força que a libido exerce sobre nós por meio das pulsões, em seus estudos encontra o eros já presente na sexualidade infantil, ao se referir às repressões sexuais e ao complexo de Édipo e acrescentamos aqui as experiências vividas ao longo da história. Amor philia, Santo Agostinho faz referência a seus amigos, o quão estes eram importantes em sua vida, enquanto partilhavam suas vidas e na resolução de questões que esse pensava. O amor enquanto agape utilizamos como exemplo o encontrado no cristianismo, na figura de Deus como Pai, aquele que possui um amor incondicional por seus filhos. Conforme nos narra o evangelista Lucas ,na passagem do filho pródigo, esse pega a parte da herança que lhe cabia e gasta irresponsavelmente, quando se arrepende e retorna para casa, é acolhido pelo Pai, que não o culpa, nem o pune, mas apenas o ama e o acolhe novamente.
Adentrar as profundezas do amor é permitir-se descobrir e também abrir-se ao outro, é processo de alteridade constante, o outro nos revela. À medida que vamos deixando cair às resistências e os equívocos que nos foram introjetados ao longo a vida, vamos nos afastando da efemeridade e vamos abraçando a essencialidade, em busca da verdade que é o amor.
Portanto, a cada momento é tempo de se descobrir, de se dar à oportunidade para amar e ser amado, somos seres dotados de sentido, e só o amor pode dar sentido a vida humana. Deixe-se perpassar pelo amor. Na canção “O sol da meia noite” da banda Rosa de Saron, encontramos uma belíssima estrofe que nos fala: “É estranho e difícil te dizer que está tudo bem. Se há alguma coisa, então venha entender. O quanto só você pode dar um simples passo de cada vez. O sol da meia-noite aqui existe. Você pense, pare. Veja que o amor resiste. Olhe, prova, sente, toca”. O ser humano nasceu do amor e para o amor, retire as resistências, amar é respeitar-se, é respeitar o outro, é tornar-se e também tornar o outro feliz . "Ama e fazes o que quiseres" Santo Agostinho.
