sexta-feira, 21 de março de 2014

RESSIGNIFICANDO O MUNDO



                                                       1
Jesus Aguiar
Vânia Dantas2

Nosso ser pessoa, além de contemplar aquilo que somos e fazemos, implica também em nos colocar em relação com o mundo. Viver é relacionar. É assim que vivemos, e nesta perspectiva ao longo do existir vai corroborando nossa imagem que temos do mundo, das pessoas, dos objetos que nos circundam.
No cotidiano temos várias imagens do mundo que nos são fornecidas por meio das conversas, da abstração. Alguns representam o mundo como lugar perdido, de pessoas sem uma direção, de um verdadeiro caos no sentido humano. Outros esboçam imagens esperançosas, onde o mundo é visto como belo, pessoas como solidárias, e a humanidade em contínua modificação.
Tais símbolos que trazemos em nosso interior sobre o exterior são meios também que influenciam diretamente nosso jeito de ser. Por vezes, a impressão que temos daquilo que “é de fora”, acaba sendo levado para nossa interioridade trazendo-nos uma verdadeira “indigestão”, nos desestabilizando, provocando um “mal estar”.
Quando nos conscientizamos de tal realidade, é momento de redirecionarmos o nosso posicionamento. Como diz um trecho da canção (Por Enquanto, Renato Russo): “Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, ta tudo assim, tão diferente...”. A vida nos proporciona novos motivos que nos fazem esquecer realidades passadas e assim mudar o horizonte do nosso poente.
Quais realidades que tem permeado seus dias? É chegado o momento de se adequar a uma nova estação, assim como os ciclos do ano, nossa vida também pede por transformações, abra-se a uma nova realidade....
Há momentos em que a vida é submetida as regras de nosso tempo, vida agitada, trânsito corrido, decisões a serem tomadas, questões familiares a serem resolvidas. Parece que somos absorvidos pelo stress de nossa hodiernidade. Certa vez Jung escreveu: “O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje”3.
São tantas e tantas situações que parecemos ser absorvidos pela exterioridade, é como se o mundo nos pegasse de nosso interior e nos colocasse em outro lugar, um lugar no qual nós não nos sentimos bem, pois não é a nossa casa, não é o lugar de nossa intimidade. E a partir daí, começamos a sofrer as nossas inadequações, nos vem o medo, a insegurança, a tristeza, até mesmo algumas enfermidades provenientes deste entristecimento por não estarmos no lugar que gostaríamos. Numa outra citação, Jung diz: “Como vemos, ambas as teorias [a de Freud e a de Adler] de que falamos tem em comum o fato de desvendarem impiedosamente o lado sombrio do homem. São teorias, ou melhor, hipóteses que nos explicam em que consiste o fator que provocou a doença. Logo, tratam não dos valores de uma pessoa, mas dos seus contravalores, que sempre perturbam ao se manifestarem”4. Ou seja, muitas vezes não sabemos gerenciar os nossos contrários, aquilo que nos propõe um “desprazer”.
O lado ruim existe! Não dá pra ficar apenas jogando-o abaixo do tapete, indefinidamente. Logo estaríamos vivendo sobre contêineres de lixo.
A vida automática por vezes nos faz esquecer de nós mesmos, dos nossos sonhos, das nossas qualidades, afinal fomos sequestrados do lugar onde mais gostamos de estar, e é nessa conscientização, no perceber que estamos aprisionados, que precisamos “bolar” um plano para sair daquilo que aos poucos vai nos matando.
Sempre é tempo de recomeçar, mesmo na dor. É preciso olhar para o lugar que nos rememora esperança e aí encontrar forças para rompermos os grilhões que nos aprisionam, nos recompormos, e então iniciarmos o processo de retorno para casa. Viver é sempre um processo de voltarmos ao lugar onde somos refeitos, onde somos novamente gerados na esperança, nos sonhos, na alegria. Esqueceu que lugar é esse? Vamos cria-lo na mente, vamos eleger o melhor para si mesmo; precisamos de modelos de bem-viver, precisamos de ideias para nos reinventar e mentalizar um paraíso mais digno, conforme nossa evolução.
O mundo pode ser modificado à medida que eu me modifico, que eu vejo o de fora de uma nova maneira, à medida que encontro forças para dar a ele uma nova moldura, uma nova pintura. Pinte o universo exterior com cores vivas, com cores que emergem de sua vida, viva de maneira renovada.
Uma vida renovada é uma vida que foi encontrada, é entrar em contato com o mais profundo de si, com o próprio Deus. Nesse sentido, Hannah Arendt escreveu: “o bem ao qual o amor aspira é a vida, e o mal que o medo afasta é a morte. A vida feliz é a vida que não pode ser perdida”5.
Muitos relatam essa experiência do reencontrar-se consigo, com Deus. E neste momento descobrimos que o mundo não está contra mim, mas fui capaz de reconciliá-lo, porque antes me encontrei comigo mesmo. É a experiência que fez Agostinho de Hipona: “Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez. Brilhaste, e teu esplendor afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume: respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e o desejo de tua paz me inflama”6.
Há uma reconfiguração em todo nosso ser pessoa, distribuído entre “espiritualidade, emoção e corpo”, tudo se integra e nos leva a uma harmonia. E passamos a ver a importância que existe no mundo que chamamos irracional ou “inconsciente”, no sentido de percebermos que não somos apenas racionais, também há outras várias dimensões em nós. É como disse Jung: “acho mais sábio reconhecer conscientemente a ideia de Deus; caso contrário, outra coisa fica em seu lugar, em geral uma coisa sem importância ou uma asneira qualquer - invenções de consciências 'esclarecidas'”7.

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1Graduado em Informática – Universidade de Lins, graduado em Filosofia – Centro Universitário Claretiano, graduado em Teologia – Faculdade Dehoniana -, Pós-graduado em Filosofia Clínica – Instituto Packter -, Pós-graduando em Psicologia/Sexualidade – Uniara.
2Mestre em História Social – Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Especialista em Filosofia Clínica - Instituto Packter, Licenciada em Filosofia – UFU. E-mail: vaniamor@hotmail.com.
3JUNG, C.G. Psicologia do Inconsciente. Tradução: Maria Luiza Appy. 3ªed. Vozes. Petrópolis, 1983, Prefácio do autor em relação à 2ªed.
4C.G JUNG, Psicologia do Inconsciente, 3ªed. Vozes, 1983, p. 39.
5ARENDT, HANNAH. O Conceito de Amor em Santo Agostinho. Lisboa: Editora Piaget, 1997. p. 19
6 AGOSTINHO. Confissões. XXVII. Tradução: Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2007.
7C.G JUNG, Psicologia do Inconsciente, 3ªed. Vozes, 1983, p. 63.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Repensar nossa história



Em um mundo tão agitado, movido pelo imediatismo, nem sempre encontramos um tempo para pensarmos sobre a nossa vida. São os afazeres, os compromissos, as obrigações do cotidiano, que acabamos nos esquecendo de nós mesmos, parece que estamos mais em torno de nossas ações do que de nosso próprio ser.
Em muitos momentos é preciso parar. Desacelerar esse processo no qual estamos inseridos e perceber as pequenas coisas que nos são essenciais e que pela agitação não conseguimos vislumbrar. É preciso ouvir a voz do coração, e adentrar a uma nova ambiência, a da fé e da espiritualidade.
Por meio da fé o ser humano encontra uma nova forma de ler o mundo, cria uma boa relação com Deus, com o próximo e com a natureza. A espiritualidade permite tais pontes, ver a presença de Deus junto a nós, e  perceber-nos como pessoa, como Filho/a amado/a de Deus.
Jesus ao longo de seu período histórico despertava naqueles que vinham até ele essa necessidade da espiritualidade, de comunhão com o Pai. No diálogo com a samaritana, ele diz: “Vem a hora, e é agora, na qual os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e verdade; tais são, com efeito, os adoradores que o Pai procura” (Jo 4,23-24).
Certamente Deus deseja isso para nós, que sejamos adoradores em espírito e em verdade. Que O reconheçamos como aquele que em seu infinito amor deseja sempre a nossa salvação, e ao mesmo tempo que olhemos sua obra criada, da qual fazemos parte, e mais ainda, que somos chamados a sermos responsáveis por ela. Essa é uma das melhores formas de se adorar, reconhecer que o Pai enviou seu Filho Jesus Cristo para nos comunicar seu amor, e que derramou seu Espírito para que caminhássemos na Sua verdade.
Portanto, a experiência com Deus, conduz-nos a nós mesmos, abre-nos a novos horizontes. Além disso, fortalece-nos e ilumina-nos; ajuda-nos a peneirar aquilo que é bom e aquilo que não é, otimizando em nós não só o nosso pensar, mas também o nosso agir. Creia, o impossível Ele pode realizar, mas deixe-se moldar por Ele!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Expressividade: encontrando a beleza do ser e do viver



Autores: Jesus de Aguiar Silva1
  Vânia Dantas2


Olhamos o mundo a nossa volta e descobrimos que vivemos uma constantemente relação de interdependência com tudo o que existe, e certamente percebemos que nossas maiores intersecções se referem à vida humana. A influência do outro em nossa vida, e também nossa influência naqueles que nos são próximos permite-nos pensar: aonde está a essencialidade da vida humana? Escondida em nosso ser ou desvelada? Por vezes, mediante aos fardos que nos são impostos, permanecemos longe de tudo, em nosso mais profundo interior, mas quando encontramos mãos que nos acolhem, palavras que nos elevam, nosso coração entra em consonância com a bondade emanada e então nos sentimos seguros, e então somos capazes de armar nossa tenda e ali depositar tudo o que trazemos em nossa bagagem.
Certamente buscamos um solo seguro, para podermos firmar nossas raízes, e ali permitirmos que nossa força vital – eros aconteça de maneira a nos fazer transcender, a nos elevar, a permitir que nosso intelecto releve a nossa mais profunda condição: sermos humanos. Essa força quando se estabelece é capaz de lançar fora tudo o que provém da falsa ilusão da vida que nos leva a morte – thanatos –. A expressividade consigo e para os outros alcança seu ápice quando encontramos um recíproco doar-se. Quando há essa entrega no sentido mais profundo de se visar o bem alheio, então contemplamos a dignidade humana. Assim, enxergamos sem aprisionar, aprendemos a proporcionar liberdade, conseguimos assistir ao espetáculo que é o outro com suas escolhas e tormentos, nos quais nem sempre podemos influir, pois cada um tem sua estrada. Conviver com o outro sem torná-lo bode expiatório de todas as nossas mazelas é, sem dúvida, o grande desafio para as relações.
O poeta Renato Russo tinha razão quando escreveu em uma de suas canções: “Não quero lembrar, que eu erro também”. O medo de se deparar com nossa realidade que ainda não foi modificada causa-nos angústia. E assim, os seres humanos, pela falta de coragem de se verem, acabam se acomodando, e com medo de mudar suas realidades, preferem convencer que os outros e o mundo estão errados, à iniciativa de sua própria mudança. De novo, Renato: “Todos se afastam quando o mundo está errado/ quando o que temos é um catálogo de erros/ quando precisamos de carinho, força e cuidado.”
Encontrar a beleza de ser e de viver talvez estejam no diálogo sincero consigo mesmo, ter a coragem de se criticar, no intuito de buscar uma obra escondida tal qual faz o artista. Essa atitude nos permite retirar nossos excessos como o que é tirado da pedra bruta, e assim conseguimos olhar a nós e a humanidade com um olhar mais estético, vendo a beleza escondida e prefigurada na pessoa alheia.
Portanto, ser e viver conjugam-se à medida que retiramos o medo e damos lugar à liberdade; a história é o grande espaço onde temos a oportunidade de nos desvelarmos ou de nos fecharmos. Ser humano é conscientizar-se de que a perfeição não existe, o que há são esforços que fazemos mediante nossas escolhas sobre aquilo que é bom mediante nossos juízos, mas lembremo-nos de que o grande critério que deve nos nortear é a vida, uma vez que o ser humano, por mais que não queira, está fadado à morte, e o seu olhar sobre a vida é que dá sentido e esperança à sua existência.


1Graduado em Informática – Universidade de Lins, graduado em Filosofia – Centro Universitário Claretiano, graduando em Teologia – Faculdade Dehoniana -, pós-graduando em Filosofia Clínica – Instituto Packter -.

2Mestre em História Social – Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Especialista em Filosofia Clínica - Instituto Packter, Licenciada em Filosofia – UFU. E-mail: vaniamor@hotmail.com.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Porta da fé – (2012 - 2013) Ano da Fé -


Sobre a Carta Apostólica – Sobre forma de Motu Próprio – Porta Fidei – Sumo Pontífice Bento XVI -

A Porta da fé – (2012 - 2013) Ano da Fé -

Desde os primórdios, a partir do momento que o homem toma consciência de si, de seu pensar, consequentemente tornou-se um ser que se projeta, um ser que espera, que acredita. Ao longo da história da humanidade, através de um processo de autoconsciência sobre si e sobre as realidades que o cercam, o ser humano tendeu apenas para o empírico, prático, e acabou deixando de lado aspectos reais, que não são empíricos, e preferiu negar sua ambiência interna. Parece ter ocorrido um aniquilamento do ser pensante, em vista do homem instintual, que não precisa dos valores para viver em sociedade, e assim consequentemente chegamos a humanidade hodierna, em que percebemos tantos avanços científicos e um regresso na dignidade humana, uma banalização do ser humano.
Quantas problemáticas em nosso mundo pós-moderno: a perda do sentido existencial, jovens perdendo-se nas drogas, a competitividade empresarial, a economia mundial em crise, o esfacelamento familiar, a perda de identidade, a falta de referencial, a destruição da natureza, a perda de valores, realmente estamos passamos por um grande caos.
A fé a partir da ótica cristã, nos possibilita uma nova vida, vida esta renascida em Cristo, que tem como missão reconfigurar a humanidade ao amor original, perdido por meio do pecado das origens, que desfigurou a imagem e semelhança de Deus em nós. Assim, “professar a fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – equivale a crer num só Deus que é Amor (cf. 1 Jo 4,8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mistério de sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor” (PF 1)1.
Como vemos, Deus a todo momento que ajudar o homem a ser feliz, em nossa contemporaneidade vemos uma humanidade carente, fragilizada, sem referencial. Buscamos um mundo de realizações e não aceitamos o sofrimento, precisamos nos recordar que o Ressuscitado é o Crucificado, o amor (glória) acaba passando pelo sofrimento (calvário), não há como fugirmos de nossa condição humana pois está ligada ao chronos. Acabamos nos afastando da fonte que nos sacia (Deus que é amor), mas é possível perceber que ao manifestarmos nosso desejo e abertura a este Amor eterno somos ressignificados e transformados por sua força. “Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos (cf. Jo 6,51). De fato, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este ensinamento de Jesus: « Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna» (Jo 6,27). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação” (PF 3)2.
Se faz necessário em nossos tempos tomarmos consciência de que a fé é dom de Deus para o ser humano, que para além de fortalecer nossa relação com Deus, também nos ajuda na ampliação da compreensão humana; assim ela nos é necessária para que saibamos subsistir num mundo perpassado por uma mentalidade utilitarista e permite-nos resgatar o valor da pessoa humana, promovendo o respeito, a dignidade e a vida. “A «fé que atua pelo amor» (Gl 5,6), torna-se um novo critério de entendimento e de ação, que muda toda a vida do homem (cf. Rm 12,2; Cl 3,9-10; Ef 4,20-29; 2 Cor 5,17)” (PF 6)3.
Uma nova evangelização se faz necessária, e para tanto precisamos realmente fazer a experiência dos primeiros cristãos que se entregavam inteiramente à fé, não numa superficialidade ou uma representação social que visasse interesses, mas consistia concretamente na entrega, na doação que transforma integralmente o ser humano. “Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria. […] abre o coração e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor a aderir à sua Palavra a fim de se tornarem seus discípulos. […] um patrimônio de riqueza incomparável e consentem ainda que tantas pessoas à procura de Deus encontrem o justo percurso para chegar à «porta da fé»” (PF 7)4.
“Só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus” (PF 7)5. A fé neste Amor que não passa emerge do interior para o exterior, e nos faz descobrir o sentido da existência, e nos direciona ao caminho correto, fazendo-nos refletir a luz que vem de Deus, Sumo Bem, é esta força que nos sustenta e motiva o ser humano a enxergar para além de sua limitação a bondade de Deus que perpassa o mundo, através do amor revelado em Jesus de Nazaré. “O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e ação da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma” (PF 10)6.
Dessa forma, a fé não se restringe a uma ambiência interna do ser humano, mas o provoca a exprimir sua fé na vida práxis, “o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso público. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. A fé, precisamente porque é um ato da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita” (PF 10)7.
Por meio da fé muitos tiveram as suas vidas transformadas e também transformaram as realidades existentes em sua época, “pela fé, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no anúncio de que seria Mãe de Deus na obediência da sua dedicação (cf. Lc 1,38). Com fé, Maria saboreou os frutos da ressurreição de Jesus e, conservando no coração a memória de tudo (cf. Lc 2,19.51). Pela fé, os Apóstolos deixaram tudo para seguir o Mestre (cf. Mc 10,28). Pela fé, foram pelo mundo inteiro, obedecendo ao mandato de levar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16,15) […]. Pela fé, os mártires deram a sua vida para testemunhar a verdade do Evangelho que os transformara, tornando-os capazes de chegar até ao dom maior do amor com o perdão dos seus próprios perseguidores. Pela fé, muitos cristãos se fizeram promotores de uma ação em prol da justiça, para tornar palpável a palavra do Senhor, que veio anunciar a libertação da opressão e um ano de graça para todos (cf. Lc 4,18-19)” (PF 13)8.
Portanto, hoje, todas as pessoas de boa vontade são convidadas a assumirem esse projeto inaugurado por Jesus e que convida a uma transformação interior e exterior. Em Cristo, Palavra viva, somos capazes de escrever uma nova humanidade através de uma intensificação do “testemunho da caridade [...]. A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2 Ped 3,13; cf. Ap 21,1).” (PF 14)9. A fé nos regenera, nos reconcilia com a vida, com a história, traz esperança e almeja a justiça. “A fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo” (PF 15)10. Assim, diante de tantas problemáticas atuais que corroboram para a degradação do ser humano, saibamos abraçar a fé e fortalecidos pelo Senhor sejamos discípulos missionários comprometidos, de modo que testemunhemos no mundo a fé traduzida em caridade, afim de que construamos uma sociedade de justiça onde reine a paz, a fraternidade e o amor.



1BENTO XVI. Carta ApostólicaPorta Fidei. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/motu_proprio/documents/hf_ben-xvi_motu-proprio_20111011_porta-fidei_po.html> acesso em: 26/11/2011, § 1.
2Ibid., § 3
3Ibid.,§ 6.
4Ibid.,§ 7.
5Ibid.,§ 7.
6Ibid.,§ 10.
7Ibid.,§ 10.
8Ibid.,§ 13.
9Ibid.,§ 14.
10Ibid.,§ 15.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

“CONVERTEI-VOS E CREDE NO EVANGELHO” Mc 1,15



A proposta apresentada por Jesus consiste em dois momentos fortes, o primeiro a mudança de pensamento – metanóia –, e o segundo crer em sua Palavra.

Diante do aspecto da transformação, que nominamos de arrependimento e conversão, é nos feito um convite de mudarmos nossas atitudes, nossa maneira de proceder, e para além de tal mudança somos convidados a aderir a uma nova forma de viver – reconfigurar nossa vontade à de Cristo -, seguindo por outro caminho, este caminho é o caminho do Senhor (anunciado por João Batista), é o projeto do Reino de Deus, que se traduz em justiça, solidariedade e amor. Esse novo estilo de vida foi vivenciado pela comunidade dos discípulos de Jesus, por Paulo e pelos seguidores de Cristo. Podemos traduzir essa nova maneira de viver em Cristo como vida no Espírito. Paulo mediante seu processo de adesão à Cristo compreende que “foi ele quem nos tornou aptos para sermos ministros de uma Aliança nova, não da letra, e sim do Espírito, pois a letra mata, mas o Espírito comunica a vida” (I Cor 3,6).

Jesus rompe com um sistema baseado em leis que apenas impunha fardos pesados sobre os mais fracos, “o ladrão vem só para roubar, matar e destruir. Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Foi subversivo às leis da religião de sua época e propôs um novo modelo de convivência, no qual a vida está acima de toda lei, pois o seu fundamento consiste exclusivamente no Amor (auto-oblação / kénosis). Para demonstrar tal atitude de Jesus vemos a cura do homem com a mão atrofiada em dia de sábado. “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou matar? Eles porém, se calavam” (Mc 3,4). E ainda no capítulo anterior outra boa nova: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; de modo que o Filho do Homem é senhor até do sábado” (Mc 2,27-28).

Baseado no anúncio e nos feitos de Jesus, o nosso acreditar neste Deus da vida e da esperança é que fortalece a nossa caminhada enquanto peregrinos neste mundo. “Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus” (Porta Fidei 7).

Assim, crer é sustentar algo em nós, e a fé que é dom de Deus, é uma estrada segura, e quando seguida é então capaz de conduzir o ser humano para além das intempéries deste mundo e transformar as realidades humanas. Quantas situações que nos aflige em nossa hodiernidade? As drogas, o consumismo, o hedonismo, o individualismo, o indiferentismo, o nihilismo, etc. “É a fé que permite reconhecer Cristo, e é o seu próprio amor que impele a socorrê-Lo sempre que Se faz próximo nosso no caminho da vida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2 Ped 3, 13; cf. Ap 21, 1)” (Porta Fidei 14).

Portanto, permitamo-nos ser ressignificados pelo Senhor, que seus ensinamentos e gestos nos motivem a crer em sua Palavra, que nos liberta de todas as realidades, ele foi quem pelo seu processo de entrega total “nos amou até o fim” (Jo 13,1), fazendo-nos compreender que a última palavra não é a morte ou o mal, mas o amor.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS


Maria é aquela que é modelo de humildade, fidelidade e obediência, sua vida foi uma entrega total a Deus. Assim para nós, Maria é tipo da Igreja, exemplo a ser seguido, pois acreditou no Amor através dos dizeres do anjo “não temas, Maria! Encontraste graça junto de Deus” (Lc 1,30). Realmente, foi o Amor quem a sustentou, por meio dela nasceu (encarnou-se) Jesus, Filho de Deus, “que não usou de seu direito de ser tratado como um deus, tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,6-7), exceto no pecado, possuidor de duas naturezas: divina e humana. Maria assim, recebe esse título de Mãe de Deus (Theotokos – Concílio de Éfeso – ano 431), em virtude de ser mãe de Deus-filho (segunda pessoa da Santíssima Trindade).
Na Constituição Dogmática Lumen Gentium, sobre a Igreja, no capítulo VIII, o Concílio Vaticano II declarou: “Efetivamente, a Virgem Maria, que na anunciação do Anjo recebeu o Verbo no coração e no seio, e deu ao mundo a Vida, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus Redentor. Remida dum modo mais sublime, em atenção aos méritos de seu Filho, e unida a Ele por um vínculo estreito e indissolúvel, foi enriquecida com a excelsa missão e dignidade de Mãe de Deus Filho; é, por isso, filha predileta do Pai e templo do Espírito Santo, e, por este insigne dom da graça, leva vantagem à todas as demais criaturas do céu e da terra. Está, porém, associada, na descendência de Adão, a todos os homens necessitados de salvação; melhor, «é verdadeiramente Mãe dos membros (de Cristo)..., porque cooperou com o seu amor para que na Igreja nascessem os fiéis, membros daquela cabeça». É, por esta razão, saudada como membro eminente e inteiramente singular da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade; e a Igreja católica, ensinada pelo Espírito Santo, consagra-lhe, como a mãe amantíssima, filial afeto de piedade” (LG 53).
É interessante observarmos que em Maria há um esvaziamento, da mesma maneira que vemos na pessoa do Filho (kenosis). Se com Adão/Eva tivemos um fechamento baseado no “orgulho e na desobediência” (Cf. Gn 3), em Jesus/Maria temos um novo tempo inaugurado, o tempo de restauração da “imagem e semelhança de Deus”, desfigurada pelo pecado, é Jesus com sua humildade, fidelidade, obediência e auto-oblação que sintetiza o que escreveu o evangelista João “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1), reconciliou o mundo com o Pai, “pois era Deus que em Cristo reconciliava o mundo consigo, não imputando aos homens suas faltas e pondo em nós a palavra da reconciliação” (II Cor 5,19). Foi nessa força do amor que Maria também acreditou e colaborou desde a anunciação para a obra da Salvação.
Portanto, como ela também somos convidados a ouvirmos a Palavra, não a palavra que nos mata, que nos leva a decadência, mas a Palavra que nos salva, liberta e nos eleva, que é o próprio Jesus, Filho de Deus, tudo converge para ele. Maria só é mãe de Deus por meio do Filho, isso implica dizer que tudo nela é cristocêntrico. Assim, como Maria acolheu a Palavra, também saibamos acolhê-la, afim de que a graça de Deus também nos eleve, porque “não há temor no amor: ao contrário: o perfeito amor lança fora todo o temor” (I Jo 4,18), permitamo-nos ser elevamos por tal força, através de nosso pensar (ortodoxia) e agir (ortopraxis), e que todo o nosso ser também proclame: “agiu com a força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou” (Lc 1,51-52). Santa Maria Mãe de Deus, rogai por nós!