domingo, 3 de julho de 2011

VINHO E MOINHOS

Autora: Vânia Dantas 1

Uberlândia – MG

Talvez a comunicação com as pessoas ‘diferentes’ seja mais possível pela emoção. Talvez nessa troca nos entendamos, tendo a razão recolhida. Mas como dizer isso para quem define a melhor forma da vida ser vivida, ou seja, através da racionalidade?

A própria existência nos ensina a ser, na figura das pessoas e situações encontradas. Assim se percebe que há caminhos para uns e para outros. Com essa emoção me lembro dos delírios que observo no mundo, no caos da Terra e no das imagens mentais. Música, vinho e fantasia.

Os moinhos de vento ruflam no meio do mar escuro. Altos, muito altos, construídos de tijolos antigos, querem tirar sal da água, água do sal. Os moinhos se vão com o redemoinho, sobem com o vento como num clipe de Pink Floyd. Esse mar, que é um copo de vinho, vinho amargo pela dor ou prazer adocicado de enjoar.

Esse corpo de vinho que se liquefaz no chão já não se agüenta de saudade e não sabe mais como existir sozinho; se altera com ondas na superfície e se espanta com a multidão de veleiros coloridos, espantalhos de surpresas e desfeitas. Se há esperança? Anseia há muito a calmaria.

Lembro premonições, como o texto distribuído na sala dos professores:


“Construção diferente

Uma nova cor muda um quadro

Uma nova página reescreve uma história

Um novo dia muda uma vida...

Que neste ano você faça parte da construção de um novo projeto:

Viver intensamente!”

Algumas vezes, essa mensagem pode ser muito certeira. Um momento que se instaura para fazer reconstruir toda uma vida, repensar o passado, mudar o futuro. Muda-se o futuro, se ele nem existe? O tempo é uma utopia? Nossas vidas, enteiadas umas às outras, mostram que o livre arbítrio não existe...

Todos quereriam viver intensamente, dez anos a mil. Mas pode haver grande diferença entre discurso e ação. O futuro seria o mesmo, com você sozinho e lutando contra a vontade de manter seus ideais por conta de convenções e limites. Você acha que o futuro já estava marcado? Então é o presente que está errado, não você... (risos) Mas se ele é presente, foi um pacotinho brilhante, com laço de fita vermelha que, acho, não soubemos bem desembrulhar e ver o que tinha escondido nos cantinhos... lá estava a poeirinha mágica, purpurina dourada pra dizer que é possível – e que, no fim, é tudo sonho. Mas você não a viu.

Voltar pro sonho. Soltar os braços e sentir um redemoinho pronto pra nos levar, pra guiar nossos planos, realizá-los. Caminhar no leito dos córregos da fazenda em busca das cachoeiras. Nadar a favor da correnteza do rio, ser o rio. Alcançar um corrimão que nos ajude a transpor a ponte de Monet para outra fase da vida. Passar para outra vida, digna de ser vivida. Sentir muito mais coisas no ar do que o corpo poderia participar, sendo ele um elemento a mais e não o principal, como ocorre com a generalidade.

Encontrei os moinhos na usina eólica instalada no alto do morro do Camelinho, ao lado da rodovia Curvelo-Diamantina. Eram figuras isoladas, brancas e bem delicadas pra se dizer que seriam monstros com quem se precisasse guerrear.



1Mestre em História Social – Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Especialista em Filosofia Clínica - Instituto Packter, Licenciada em Filosofia – UFU. E-mail: vaniamor@hotmail.com.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Metafísica: O escândalo da cruz anunciado por Paulo e o esquecimento do ser proposto por Martin Heidegger

Nos últimos séculos temos percebido o empenhar-se do homem hodierno pela ciência, e o esquecimento de tantas outras formas do saber que não são possíveis de serem demonstradas empiricamente (poesia, arte, música, fé), mas que carecem de contemplação. Assim, existem coisas que são próprias do ser, e que não podem ser tocadas pelo cientificismo, o homem é muito mais do que ele faz, o homem é um ser que é.

Hannah Arendt que foi aluna de Heidegger, nos leva a esta reflexão, o homem vive mais preocupado com o “agir” do que com o “pensar”. No que nos transformamos? Será que não estamos apenas reproduzindo um sistema? Como nossa vida é reduzida nos dias de hoje? Procuramos as melhores escolas, nos esforçamos para conseguir os melhores empregos, se preciso até prejudicando outras pessoas, fazemos e fazemos, mas em vista do que? Pelo dinheiro? Para conquistarmos bens materiais? De uma falsa felicidade? É, realmente parece que nossas ações convergem apenas para o material, o ser assim é definitivamente esquecido, deixado de lado.

Heidegger em seu pensamento, coloca a diferença entre ser e ente. O ser é aquilo que o homem é (essencialmente) falando, o ente é aquilo que ele demonstra em suas relações no mundo, com as coisas. O ser não pode ser tocado, e o ente só existe (age) porque o ser é (o alimenta, é a sua força). Quando vejo uma pessoa, interajo com ela, relaciono-me externamente com seu ente, mas o seu ser (suas dimensões mais profundas – abstratas -) eu não consigo experienciar onticamente, ao mesmo tempo que parece estar perto, é distante. Isso não quer dizer que o ser não é ou esteja fechado, apesar das pretensões científicas, utilizando de meios empíricos, a ciência não consegue tocá-lo. A poesia expressa uma das chaves de acesso ao real, Pascal tem razão ao dizer “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Falar de tal situação faz-nos refletir sobre algo que o apóstolo Paulo anunciava, cf. I Cor 1,18-25: “A pregação da cruz é loucura para os que se perdem, mas para os que são salvos, para nós, ela é força de Deus. Pois está escrito: “Destruirei a sabedoria dos sábios e confundirei a inteligência dos inteligentes”. Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o disputador desta era? Aliás, Deus não reduziu a loucura a sabedoria deste mundo? De fato, pela sabedoria de Deus, o mundo não foi capaz de reconhecer a Deus através da sabedoria, mas, pela loucura da pregação, Deus quis salvar os que creem. Pois tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria. Nós, porém, proclamamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens”1.

Nesse sentido, traçamos um ponto em comum entre Heidegger e Paulo, em que, para Heidegger, a ciência acredita ter acesso a tudo por meio de sua técnica e conhecimento, achando possuir a sabedoria por meio da epistemologia. Em Paulo, dentro de seu contexto, viviam “a gente do espírito”, que eram aqueles estudiosos, considerados os sábios, achavam-se eles os “dominadores da sabedoria”, mas não foram capazes de reconhecer o escândalo da cruz, na pessoa de Jesus Cristo. Pois, como poderia Jesus (um justo) ser morto numa cruz? Queriam crer apenas num salvador super-humano, enquanto Paulo insistia na ideia de um salvador crucificado. É interessante que “o louco” é visto de certa forma como alguém diferente, que saiu da “normalidade”, da lógica, do senso comum. Não seria assim, um encontro profundo com o ser? Um rompimento com o senso comum? Não seria este então o sábio?

É importante lembrar que a morte de Cristo foi consequência de sua auto-oblação, não vontade de Deus, mas da maldade dos homens que não acolheram a Palavra; Jesus entregou-se inteiramente ao projeto do Reino de Deus, que prezava o ser, a pessoa humana, a vida. Lutou pela dignidade humana, “com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” Lc 19,102. Jesus não olhava o efêmero, mas a essencialidade, o que a pessoa era em si (ser). Nas palavra de Heidegger “este afastar-se do ente em sua totalidade, que nos assedia na angústia, nos oprime. Não resta nenhum apoio. Só resta e nos sobrevém ― na fuga do ente – este “nenhum”. A angústia manifesta o nada”.3

Não teria Jesus vivido isso? Afastado-se da totalidade dos entes (fenômenos efêmeros – poder, a busca pelo status quo e o egocentrismo - ?) e lutado por justiça, por partilha e pelo bem comum? E quando há o rompimento com o senso comum, o que nós sobra? A angústia. E a angústia nos leva a sair de toda essa situação, e nos insere num processo de nadificação, onde o vazio parece surgir, mas na realidade é a entrada ao mais profundo de nós mesmos (ser). Jesus assim, por escolher viver e fazer a vontade do Pai, buscando o real que não é somente empírico, sentiu angústia, conheceu o mais profundo da condição humana, foi capaz de compreender o coração daqueles que foram deixados à margem, “esvaziou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-Se semelhante aos homens” Fl 2,7a.

Portanto, em nossa atual conjuntura mundial, com seus pensamentos e maneiras de se viver, saibamos nos questionar se de fato estamos vivendo (ser), ou estamos sendo conduzidos (ente) por um sistema. A problemática é justamente esta, estarmos sendo conduzidos nos leva a sentirmo-nos num espaço e neste espaço efetuamos algumas tarefas letárgicas, insignificativas, agimo-nos como marionetes. Viver é justamente o contrário, é perceber-se que se está no tempo, e quando optamos em entrar em contato com nosso ser descobrimos a importância do que somos, e isso nos desperta ao altruísmo, nos faz perceber que somos parte de um todo (holismo), que as pessoas que nos cercam nos são significativas, e que o cosmos – a ecologia - também é responsabilidade nossa. Assim, o escândalo da cruz e a metafísica de Heidegger ao contrário do que muitos pensam ser apenas ideias inatingíveis, “loucura”, quando assumidas na vida humana são capazes de produzir vida, existência, caridade e fraternidade, nos fazendo compreender o sentido de ser e de existir (dasein) no mundo.


1Bíblia edição CNBB.

2Ibid. CNBB

3HEIDEGGER, Martin. Coleção -Os pensadores. Tradução: Ernildo Stein. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999. p.56-57.

domingo, 16 de janeiro de 2011

RESENHA - EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL VERBUM DOMINI

RESENHA

Exortação Apostólica Pós-Sinodal VERBUM DOMINI

Sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja

Papa Bento XVI


BENTO XVI, Exort. ap. Pós-sinodal Verbum Domini (30 de Setembro de 2010). 2ª Ed. São Paulo: Paulinas.


A prioridade que se concluiu no Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus em setembro de 2008 é de elevar o coração do homem ao coração de Deus (um reabrir-se) para que este “tenha vida em abundância” Jo 10,10. A XII Assembleia Sinodal voltou-se a redescoberta de que Deus nos fala e responde às nossas perguntas por meio das Escrituras.

Diz o papa a respeito do Sínodo, no sentido de influir de maneira eficaz na vida da Igreja o aprofundamento no estudo da Palavra, uma vez que nosso fundamento de nossa fé é o próprio Verbo: “Sobre a relação pessoal com as Sagradas Escrituras, sobre a sua interpretação na liturgia e na catequese bem como na investigação científica, para que a Bíblia não permaneça uma Palavra do passado, mas uma Palavra viva e atual”1.

Em seu infinito amor Deus da-Se-nos a conhecer. Sendo nós imagem e semelhança dEle, só nós conhecemos nEle. “A expressão 'Palavra de Deus' acaba por indicar aqui a pessoa de Jesus Cristo, Filho eterno do Pai feito homem”2. “Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo (cf. Jo 1,3), oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo na criação”3.

Tudo o que existe, provém da Palavra que é fundamento da realidade. As efemeridades que nosso mundo hodierno nos apresenta não nos preenche, não nos edifica e não nos propicia raízes sólidas. Ao longo do tempo Deus nos falou por meio dos profetas e, seu amor, sua Palavra Se revelou no Filho (Jesus), o Logos. A Palavra teve empiricamente forma humana, vista, ouvida e testemunhada pelos apóstolos. Na cruz a Palavra se silencia, e a todos os que com Ele crucificam sua carne tornaram-se livres, uma aliança que se solidificou, por meio de Jesus que na ressurreição, tornou-Se à luz a iluminar todo o gênero humano e toda criação.

“Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra e não tem outra, Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer (...)”4. Deus nos inspira por meio de seu Espírito, e a Sagrada Escritura contém a Palavra de Deus que nos direciona a vivermos uma vida segundo a vontade do Pai. A Escritura não vai contra os anseios do homem, mas o ilumina, o purifica em suas realizações, levando-nos assim a compreender que a fé está intimamente ligada a Palavra.

O pecado que habita o coração humano é revelado pela Palavra de Deus, que nos torna conscientes que o pecado consiste em “não-escutar”, em desobedecer a Deus. Em Cristo que é a própria Palavra, encontramos misericórdia e redenção para o nosso pecado, através da escuta de Sua Palavra. Maria é o símbolo de abertura a Deus, nela a Palavra tomou forma, encarnou-se.

“As palavras divinas crescem juntamente com quem as lê. Assim, a escuta de Deus introduz e incrementa a comunhão eclesial com todos os que caminham na fé”5. No estudo da Sagrada Escritura, somente quando se observa os dois níveis metodológicos, histórico-crítico e teológico, é que se pode falar de uma exegese teológica, de uma exegese adequada a este livro”6.

São Paulo descobre que “o Espírito libertador tem um nome e que a liberdade tem, consequentemente, uma medida interior”. “O Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor há liberdade” (2 Cor 3,17)7, criando assim um elo entre o Antigo e o Novo Testamento. O Antigo e o Novo testamento estão intimamente ligados, ambos fazem referência a manifestação de Deus na história, de modo objetivo à pessoa de Jesus de Nazaré.

A Sagrada Escritura não pode ser interpretada de uma maneira fundamentalista, mas precisa ser levado em consideração o valor do conteúdo histórico, para que nos aproximemos dessa verdade que é o próprio Deus. Ao longo da história bíblica os profetas se levantaram para exortar os homens e a reconduzi-los ao caminho de Deus.

A interpretação da Sagrada Escritura nos leva a uma vida de unidade, tal como o desejo de Jesus “Pai que todos sejam um” (Jo 17,21). Não podemos desprezar também o testemunho dos santos, que vivendo a Palavra deram exemplo com a própria vida e estes se tornaram referência para que interpretemos bem o que nos propõe as Escrituras.

A Igreja é anunciante desta Palavra, de maneira particular na liturgia, onde no Centro está o grande Mistério Pascal, nEle estão intimamente ligados todos os mistérios de Cristo. Assim, “Palavra e Sacramento estão sempre juntos, “pois não há separação entre o que Deus diz e faz”8.

Neste sentido, a Palavra anunciada nas celebrações precisa ser ouvida e meditada, as homilias e pregações devem trazer como centro o próprio Cristo, que primeiramente ouvimos através da Palavra, em seguida trazemos para o nosso interior e por último somos convidados a vivenciar a Palavra na comunidade de maneira concreta. Desta forma, que na vida do cristão Palavra e testemunho caminhem lado-a-lado.

Valorizar a Celebração da Palavra, que é momento e lugar de encontro com o Senhor, sem é claro, confundirmos com a Celebração Eucarística, é sem dúvida uma maneira de aproximarmos a Palavra, do povo de Deus. Prezar pelo silêncio e adoração, é também uma forma que Deus fala ao seu povo. A Liturgia das Horas também fortifica a vida de oração. É necessário valorizarmos mais a Palavra, reservando um lugar de destaque para a Bíblia em nossas Igrejas e comunidades (sem retirarmos o foco do sacrário). Que em nossas casas tenhamos a Bíblia em um lugar de destaque, para que possamos rezar diariamente. Todos esses esforços são necessários e, que nos empenhemos para que a Palavra chegue as mãos de nossos irmãos.

Precisamos nos aprofundar em nosso relacionamento com a pessoa de Jesus, para isso somos convidados a criar em nossas comunidades um tipo de “serviço de animação bíblica” em que conheçamos e estudemos a fundo as Escrituras. A catequese é um lugar privilegiado para o aprendizado da Palavra, ao lado da tradição (Catecismo da Igreja Católica) que nos ajuda na compreensão da vontade de Deus. O aprofundamento nesta Palavra nos remete a busca pela santidade, pois a Palavra nos forma. Assim, os bispos, sacerdotes e ministros da Palavra são convidados por meio do testemunho a buscarem uma vida de intimidade com a a Palavra. O estudo bíblico e a oração para com a Escritura, devem estar intimamente ligados. Tal procedência nos remete a buscarmos o sentido para nossa existência “indica ao mundo de hoje que é mais importante e, no final de contas, a única coisa decisiva, existe uma razão última pelo qual vale a pena viver, isto é, Deus e seu amor imperscrutável”9.

O Evangelho precisa ser difundido no mundo, e para isso a Igreja conta com a ajuda dos leigos, através deles, por meio do matrimônio, no testemunho cristão aos filhos, essa Boa Nova vai sendo transmitida. A mulher nesse cenário ocupa um lugar privilegiado, pois esta traz em si a ternura, tão importante no anúncio da Palavra. Dessa forma, “é muito importante a leitura comunitária, porque o sujeito vivo da Sagrada Escritura é o Povo de Deus, é a Igreja […] A Escritura não pertence ao passado, porque o seu sujeito, o Povo de Deus inspirado pelo próprio Deus, é sempre o mesmo, e portanto, a Palavra está sempre viva no sujeito vivo”10.

A Lectio Divina é também um caminho para o encontro com o Cristo, que consiste na leitura da Palavra (o que diz o texto em si), a meditação (o que nos diz o texto), a oração (nossa resposta ao Senhor à Sua Palavra) e a contemplação (mudança que Deus nos pede para vida). A oração do Angelus Domini (No amanhecer, ao meio dia e ao entardecer) também é uma forma de rememorarmo-nos a encarnação do Verbo.

“O Verbo de Deus comunicou-nos a vida divina que transfigura a face da terra, fazendo novas todas as coisas (cf. Ap 21,5). A Sua Palavra envolve-nos não só como destinatário da revelação divina, mas também como seus arautos11. Nas Palavras de Bento XVI: “Ele é aquele Deus que possui um rosto humano e que nos 'amou até o fim' (Jo 13,1)”. Por isso, a Igreja é missionária, pois a Palavra deve ser anunciada para toda humanidade.

Para uma boa eficácia de uma nova evangelização é preciso o anúncio e também o testemunho como ressaltara o papa João Paulo II. “A própria Palavra nos recorda a necessidade do nosso compromisso no mundo e a nossa responsabilidade diante de Cristo, Senhor da história. Quando anunciamos o Evangelho, exortamo-nos reciprocamente a cumprir o bem e a empenharmo-nos pela justiça, pela reconciliação e pela paz”12.

“A evangelização e a difusão da Palavra de Deus devem inspirar a sua ação no mundo à procura do verdadeiro bem de todos, no respeito e promoção da dignidade de toda a pessoa”13. “Escutando com ânimo disponível a Palavra de Deus na Igreja, desperta-se “a caridade e a justiça para com todos sobretudo para os pobres”. É preciso nunca esquecer que “o amor – caritas – será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa […]. Quem quer desfazer-se do amor prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem”14.

O amor a Deus e ao próximo traduzem de maneira concreta o compreendimento da Escritura. Cristo é o melhor arquétipo para formação da juventude, para o ser humano, a nos fazer deparar com o que há de mais excelso em nossa condição humana. Deus se dá todo a nós.

O anúncio da Palavra deve chegar àqueles que sofrem de enfermidade física, psíquico e espiritual. “A vida humana digna de ser vivida plenamente, mesmo quando está debilitada pelo mal”15. A exploração da natureza é uma outra questão levantada, uma arrogância a não obediência da Palavra criadora, pois a obediência promove uma ecologia autêntica.

Dessa forma, para que a Palavra produza seu efeito em nossa vida e no mundo, torna-se de suma importância que “cada cultura deve estar aberta à transcendência, em última análise, a Deus”16. A Bíblia possui uma variedade de elementos antropológicos e filosóficos que contribuíram com a humanidade. Nesta contribuição está também a Arte (arquitetura, literatura e música). Utilizar dos meios de comunicação para o anúncio dessa Palavra é também um passo importante em nosso tempo.

A aculturação se torna um meio positivo na divulgação da Palavra de Deus, pois através da tradução da Bíblia em outras línguas, esta colabora de forma significativa para todas as culturas, através dos valores contidos no Evangelho.

Portanto, a Palavra de Deus é capaz de se manifestar nas diversas culturas e línguas distintas, gerando união e comunhão entre os povos. “A Igreja reconheceu como parte essencial do anúncio da Palavra o encontro, o diálogo e a colaboração com todos os homens de boa vontade”17. Como disse Bento XVI “o anúncio da Palavra cria Comunhão e gera alegria”18. Assim, movidos por esta Palavra que criou o mundo e que move o ser humano, que possamos semear esta Palavra em todos os lugares (em nossas famílias, em nossas comunidades, em nosso trabalho, em nossas escolas), e movidos pelo Espírito que inspirou os escritores sagrados, que possamos refletir na sociedade e no próprio planeta a encarnação do Verbo, e dizer como Paulo “por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. O mundo antigo passou, eis que aí está uma realidade nova” (II Cor 5,17).




1Verbum Domini, § 5

2Ibid., § 7

3Ibid., § 8

4Ibid., § 14 – citando São João da Cruz

5Ibid., § 30

6Ibid., § 34

7Ibid., § 38

8Ibid., § 53

9Ibid., § 83

10Ibid., § 86

11Ibid., § 91

12Ibid., § 99

13Ibid., § 100

14Ibid., § 103

15Ibid., § 106

16Ibid., § 109

17Ibid., § 117

18Ibid., § 123


Recomendo a leitura completa desta Exortação pela profundidade que esta nos apresenta.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano Novo, configuração do nosso coração ao coração de Cristo!

O ano de 2010 rapidamente vai ficando para traz, e adentramos num novo ano, mas para além de uma cronologia, é tempo de renovarmos nosso ser, retirar aquilo que de fato foi encrostado no decorrer da história, e abrirmo-nos a um tempo novo, um tempo de graça que provém do Cristo.

O novo sempre nos revela, traz à luz aquilo que até então estava escondido, e que agora nos é desvelado. Em sua recente Exortação Apostólica Pós-Sinodal (Verbum Domini), § 14, o papa Bento XVI, citando São João da Cruz diz: “Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é sua Palavra – e não tem outra – Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem pra dizer […]. Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é seu Filho”.

Somos convidados a acolher esta boa nova, tendemos ao saber, e em Jesus temos uma vida nova e realmente transformada, aprendemos a compreender que o prazer e as efemeridades deste tempo não são sinônimos à felicidade, e que a felicidade passa pela Cruz, afim de se atingir a plenitude – Ressurreição -. Hannah Arendt em seu livro - A Condição Humana - escreve: “[...] quem deseje fazer do prazer o fim último de toda ação humana, é levado a admitir que não o prazer, mas a dor, não o desejo, mas o medo, são os seus verdadeiros guias”. Em sua Carta Encíclica João Paulo II nos exorta:Na contraposição paulina do “espírito” e da “carne” encontra-se inscrita também a contraposição da “vida” à “morte”. Trata-se de um grave problema acerca do qual é necessário dizer, de imediato, que o materialismo, como sistema de pensamento, em todas as suas versões, significa a aceitação da morte como um termo definitivo da existência humana” Dominum et Vivificantem § 57.

Faz-se necessário em nossos dias um revisar da consciência, um voltar-se as origens, para que o homem redescubra o sentido de sua existência. “Somente o Espírito Santo pode convencer do pecado dos primórdios do ser humano, exatamente ele que é o Amor do Pai e do Filho, ele que é Dom, enquanto o pecado do princípio humano consiste na mentira e na recusa do Dom e do Amor, os quais decidem do princípio do mundo e do homem” Dominum et Vivificantem § 35.

Portanto, neste novo ano que vamos adentrando, saibamos acolher esta grande novidade tão antiga e tão nova, o próprio Cristo, e com Ele saibamos construir uma vida edificada na verdade que nos é revelada pelo Espírito Santo, e que sejamos solidários e promotores de um mundo novo, onde reine a justiça, a paz e o amor.



Feliz Ano Novo !

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

NATAL, Jesus nasça em mim!

A festa do nascimento de Jesus, o Verbo feito carne, mudou o sentido da história da humanidade, e continua a modificá-la, à medida em que esta se deixa moldar pela manifestação constante de Deus na vida humana.

O ser humano, como em nenhum outro tempo vive um vazio existencial tão profundo como em nossos dias. A humanidade cresce, evolui, potencializa o ser humano a viver, a buscar o prazer, a ser feliz, mas infelizmente regride enquanto ser eterno e se afasta das coisas do alto.

Jesus, o próprio amor, se revelou na humanidade para comunicar a boa nova do Pai, Ele é a própria vida que dá sentido ao ser humano, quando este se permite ser tocado por seu amor eterno. Uma das dimensões do amor é filia – amizade -. Jesus enquanto esteve com os seus no evento histórico, demostrou claramente esse amor “amigo”. Nas palavras de João, o evangelista releva algo desta intimidade “já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” Jo 15,15. O próprio Senhor nos demostra que a amizade é um dos caminhos pelo qual o amor de Deus chega ao coração do homem, e não o escraviza, mas ao contrário, dá a conhecer tudo aquilo que possui em excelência, como Jesus nos revelou aquilo que ouviu do Pai e conosco partilhou.

Portanto, que neste Natal possamos pedir a graça de estabelecermos nossa amizade com Deus, que Jesus nasça em nosso coração, dentro desse vazio que enfrentamos em nossa atualidade, e peçamos que Ele, a sua palavra que é vida, cresça em nós e nos leve ao seu seguimento, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” Jo 13,1.


Feliz Natal e um abençoado Ano Novo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ADVENTO: A ESPERA PELO SALVADOR

O Antigo testamento é perpassado pela promessa da chegada do Salvador. O povo que era oprimido e não via esperança diante dos homens, esperava em Deus a vinda dAquele que lhes traria a libertação.

Para receber o Salvador, somos convidados a preparar a nossa casa, nosso coração. Quando Jesus anunciou que ia à casa de Zaqueu, este primeiramente quis colocar em ordem o lugar em que Jesus haveria de adentrar. “Zaqueu ficou de pé e disse: A metade dos meus bens, Senhor, eu dou aos pobres; e; se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais”. Lc 19,8.

Ter um encontro pessoal com Jesus é algo transformador. É uma metanóia – transformação de vida -. É a mudança – movimento - de uma realidade velha para uma nova. Foi assim que ocorreu com Zaqueu. Cansado da vida que levava, oprimido pela função que exercia como cobrador de impostos, em que era odiado tanto pelo povo, como pelos fariseus; toma a decisão de abandonar tal situação e abre as portas de sua vida para uma nova realidade: Receber Jesus.

Nas palavras do evangelista João, Jesus é “a luz verdadeira, aquela que ilumina todo homem”. Atualmente nossa humanidade caminha em direção contrária aquilo que está inscrito no coração do ser humano (a vida, o amor, a verdade, o bem...). Por isso, se faz necessário no advento uma preparação em nosso interior, uma reflexão mais profunda sobre nossas escolhas, afim de que possamos preparar o nosso coração para aquele que ilumina toda a realidade, “essa luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram apagá-la” Jo 1,5.

É momento propício para nos prepararmos para a chegada do Libertador, Aquele que nos livra de nossas prisões interiores e exteriores, sua palavra é capaz de nos mover, de nos transformar, de nos fazer novos, de ressignificar os acontecimentos passados, e de nos tornar homens e mulheres novos através de seu eterno amor. João Batista é quem dá testemunho dele dizendo: “Eu batizo vocês com água. Mas vai chegar alguém mais forte do que eu. E eu não sou digno nem sequer de desamarrar a correia das sandálias dele. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo”. Lc 3,16.

É nítido de se perceber que a entrada de Jesus na vida do ser humano produz um efeito libertador. Sua presença torna sagrado aquilo que antes não havia sentido. A chegada de Jesus nos permite conhecer parte daquilo que nos será revelado a posteriori, é uma antecipação da vida plena. O grande Paulo, dá testemunho do que lhe ocorreu após ter permitido a entrada de Jesus em sua vida: “Quanto a mim, foi através da Lei que eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus”. Gl 2,19.

Portanto, assim como Deus espera que seus filhos se voltem a Ele, que nós também esperemos de coração aberto o próprio Salvador, afim de que nossas vidas e nossas realidades, sejam moldadas à luz do Senhor, para que através de nossa conversão, possamos viver e reluzir a glória de Deus no mundo.

domingo, 26 de setembro de 2010

A IGREJA E SUA MISSÃO


A Igreja ao longo dos séculos é transmissora da Palavra de Jesus Cristo, uma Palavra que ultrapassa os limites da razão, sem nos retirar da realidade, e insere no coração de cada homem e de cada mulher a “boa notícia”, capaz guiar e sustentar a humanidade, mesmo nos momentos mais adversos.

Neste mundo de hoje é crescente uma visão tecnicista, reducionista da pessoa humana, um pensamento utilitarista, em que o valor do ser humano está no que ele pode oferecer e não no que ele é (filho de Deus). A proposta da Igreja enquanto instituição mantenedora do depósito da fé, é de fazer ecoar no mundo as palavras do Cristo: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a todas as criaturas” (Mc 16,15).

Todo a humanidade está em busca da realização, da vida feliz, mas toda busca mal orientada tem o seu foco perdido, frustrado. É em Jesus de Nazaré que encontramos sentido para a nossa existência. O saudoso papa João Paulo II em sua Carta Encíclica “Fides et Ratio” parágrafo nº 99 escreve: “Na Igreja, o trabalho teológico está primariamente, a serviço do anúncio da fé e da catequese. O anúncio, ou querigma, chama à conversão, propondo a verdade de Cristo que tem o seu ponto culminante no Mistério Pascal: na verdade, só em Cristo é possível conhecer a plenitude da verdade que salva (cf.At 4,12; 1Tm 2,4-6)”.

O encontro com a pessoa de Jesus nos fascina, nos projeta, nos eleva. Nossa religião enquanto formadora e educadora, nos apresenta um Deus presente, mas ao mesmo tempo escondido dentro de nossos corações, não é um deus de fábulas ou de contos, mas ao contrário, um Deus uno e trino, que se revelou na história humana, por meio de seu Filho amado, Jesus, que nos apresentou o Pai e nos enviou o Espírito Santo. “Se me amais, observeis os meus mandamentos; quanto a mim, eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Paráclito, que permanecerá convosco para sempre” (Jo 14,15).

Nas palavras do teólogo galego Andrés Torres Queiruga, “a cruz não tem a última palavra, uma vez que desemboca na ressurreição”. Assim, os desafios e os limites da vida não possuem em si o definitivo, são apenas momentos pertencentes ao tempo, e tudo o que é temporal é passageiro. Durante a vida encontramos muitas dificuldades, passamos por situações de sofrimento, perda, medo, insegurança; tais acontecimentos são próprios de nossa fragilidade humana, mas quando estamos unidos a Deus, seja pela oração, pelos sacramentos, eis que o Espírito nos fortifica, nos forma, nos educa, nos conduz, e então somos capazes de enxergar as realidades de maneira nova, “é como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (I Cor 2,9).

Portanto, a Igreja para além de um lugar de oração é também lugar de formação, de missão, e quer ajudar os seres humanos a se descobrirem e a conhecerem o verdadeiro Deus, que “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” Jo 13,1.